Blog do Betusko

LITERATURA, CONTOS, POEMAS E AFINS

O Fado que não se deu

Written By: Roberto - ago• 25•15

Bandolim horizontal

Eu chovo, tu choves, ela chora pobre de mim, criatura insensata
lavei os medos e os sentidos todos
naquele aguaceiro sem fim
deu dó ter esquecido os compassos
daquele velho fado lisboeta
pois que os dedos já não alcançavam
a velocidade necessária ao bandolim
enquanto o coração entristecido
fazia de conta que ainda era Abril
e as andorinhas saudavam o poeta
na sua passagem matutina rumo ao porto.

Eu calo, tu calas, ela canta
um lamento pequenino e cortante
uma dor  que se oculta em esperanças
perdidas no cume de uma montanha
onde sábias ovelhas observam
nossa pseudo-sabedoria humana
dissolvida em crenças arraigadas
e goles e mais goles de vinho tinto
num piquenique interminável
em meio a uma paisagem surreal
surtada em inspirações impressionistas
psicodelicamente embriagadas.

Eu movo, tu moves, ela mora
agora apenas em meus sonhos.

APPROACH

Written By: Roberto - out• 08•14

imagesPMBLPFWI       Sexta-feira na boca da noite. Eu sentado no barzinho de sempre, fazendo o rescaldo dos incêndios e terremotos da semana que passou quando  uma BMW que vinha descendo a ladeira,  reduziu a velocidade. De sua janela foi brotando um cabeção loiro que berrou:

     _ Oi Roberto, preciso falar contigo! Em seguida acelerou e sumiu na curva.

     Fiquei rodando o HD da memória para ver se me lembrava de onde o conhecia – gastei quinze minutos  e um chope na pesquisa até encontrar, lá no fundo das lembranças, o nome do fulano. Era o Jorginho cabeção, colega de sala do Ensino Fundamental.

      Mas o que será que o Jorginho poderia querer comigo, depois de mais de 30 anos sem nos vermos? Decerto soube que eu era corretor de seguros e estava querendo renovar o seguro da BMW.

      Dois dias depois me deparei com Jorginho no restaurante em que eu almoçava frequentemente. Veio se aproximando todo sorridente e me abraçou emocionado. Fiquei um pouco sem graça e o convidei para sentar-se.

Chamou o garçom e, como eu não havia feito o pedido, escolheu um Bacalhau à Gomes de Sá e um vinho verde. Fez um resumo de sua vida; mulher, três filhos, empresário do ramo da construção. Lembramos  da nossa adolescência, rimos um pouco e só, a conversa parou par aí. Insistiu em pagar o total da conta e saiu apressado para um compromisso.

      Na sexta-feira seguinte, no mesmo barzinho, quando comemorávamos o aniversário de um colega do escritório, eis que surge o Jorginho cabeção,  todo solícito,  com seu sorriso largo. Pediu licença e juntou-se a nós. Bebeu, contou piadas e disse em voz alta, erguendo um brinde:

     _ Aqui só quem paga a conta sou eu!

       Quando  levantei-me para ir ao banheiro ele foi atrás. Pensei comigo: _ Hum, aí tem coisa! Dinheiro ele não vai me pedir, será que é gay, não sei não. Vai ver que tem alguém na família precisando de transplante de medula óssea, ou coisa assim.

       Antes de atravessar o salão ele me abordou:

     _ Sabe Roberto, eu preciso lhe pedir uma coisa… Fiz cara de poucos amigos e   ele deve ter percebido porque rebateu:

     _ Não, não é nada disto que você está pensando, é que eu estou candidato a Deputado Estadual e gostaria de contar com seu voto e de sua família.

    _ Ah, é isto então – respondi deixando escapar um suspiro de alívio.

    Ao voltarmos para a mesa, expliquei a ele a minha situação:

    _ Sabe Jorginho, no dia da eleição nem eu nem minha esposa estaremos aqui, infelizmente não votaremos no primeiro turno pois estamos de viagem marcada. Minhas filhas estão fora do país e minha mãe não vota porque é estrangeira. Me desculpe mas não poderei lhe ajudar.

    Jorginho puxou do bolso um bolo de santinhos de sua candidatura, espalhou sobre a mesa, chamou o garçom, pagou a conta e fechou a cara, saindo sem se despedir.

     Depois daquele dia, nunca mais eu tornei a ver o Jorginho cabeção.

CORDEL

Written By: Roberto - set• 16•14

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“Quando Sérgio e Cristina ficaram vinte e cinco anos juntos”

Noite de Lua artista

Numa Sexta Feira quente

No Bairro da Bela Vista

Bem na frente dos parentes

O “brimo” Sergio Miguel

Um caboclo bem valente

Resolveu mostrar que é gente

E mudar a sua sina

Casando sobremaneira

“C´o”a bailarina Cristina

 

 

Foi um dia de alegria

Na família dos Miguel

Tinha tanta euforia

Dança do ventre e pastel

doces de toda valia

Vinho, Arak à granel

Ah, quanta sabedoria

  na força de um anel

Que um par de noivos une

Prá tornar a vida um mel

 

Mas nem tudo foi suave

Na estrada do bom casal

Umas poucas coisas graves

Deixam a vida um pouco mal

Pois no caminho há entraves

Que é pra nos desafiar

Tudo isto é normal

Não vale choramingar

Que o amor celestial

Vai sempre abençoar

 

Eis que o Tarick vingou

Primogênito esperado

E a família espichou

Muito amor foi semeado

Pois a Ingrid estreou

Princesinha que é um show

E finalizando o círculo

O caçula Victor veio

Prá fechar este capítulo

E completar o recheio

 

 

Ô família abençoada!

Que o Grande Arquiteto ampara

Entoando uma toada

De paz, amor e saúde

E o Sérgio, amiúde

Se declara à sua princesa

Prá manter a chama acesa

E o amor na plenitude

Senão a peteca cai

E dormir no sofá vai

 

 

Salve, salve, oh bom casal!

Curta este bom astral

Pois casar é muito fácil

Ainda mais com mulher grácil

Duro mesmo é atravessar

Caminhando par a par

Na alegria e na tristeza

Vinte e cinco anos juntos

Mantendo belo conjunto

Par de primeira grandeza

 

Por isso, caros amigos

Hoje é um dia de festejo

E vamos todos comigo

Ofertar um grande beijo

Ao irmão Sérgio Miguel

E a sua doce Cristina

Estrelas deste Cordel

Casal que a todos fascina

Desejamos  nesta data

Felizes Bodas de Prata!

 

Betusko 13.09.2014 –   Bodas de Prata do casal Sérgio e Cristina

Haicai XXVIX

Written By: Roberto - dez• 30•13

 o gato caminha
pelo estreito parapeito
no peito, o aperto.

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CARVÃO E DIAMANTE

Written By: Roberto - dez• 28•13

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Sabe-se que o carvão e o diamante são obtidos da mesma substância, só variando o grau de vibração de suas moléculas. Na verdade, o diamante é só um pedaço de carvão que se deu bem sob pressão… Pense nisto!

Poema sobre tela de Antonio Parreiras

Written By: Roberto - nov• 09•13

Obra de Antônio Parreiras – 1912 – Pinacoteca de São Paulo.

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DERRADEIRO COMANDO

O cheiro de pólvora é forte

Três urubus sobrevoam à distância

O tiro entrou pela nuca

Emboscada ou perseguição?

Seria vingança ou tempos de guerra civil?

O morto é jovem, o local descampado

A arma na mão não foi suficiente para a defesa

O sol ainda não se desprendeu do horizonte

Os sonhos do rapaz já se desintegraram

Quem sabe Maria o esperasse em vão, na soleira do casebre

já pressentindo o vestido negro do luto iminente

Ou talvez os irmãos aguardavam o caçula

para celebrar a festa da colheita

Quem saberá…

Apenas o cavalo segue ali, companheiro de todas as horas

Lambendo a face do amigo caído,

A esperar pelo comando costumeiro:

Avante, amigo!

FLANANDO

Written By: Roberto - set• 08•13

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Caminhar com a vida

na corda bamba,

com passos trôpegos,

não deixa pegadas

porém, deixa dúvidas,

às vezes, dívidas

outras vezes nos faz reféns

de um falso equilíbrio

no afã de alcançar

a inacessível meta

da felicidade freudiana

que passa distante

da metáfora do  anjo caído

despencado do seu habitat natural

no tremer da corda roída

sob o sussurro assustado

de um vento traiçoeiro;

e assim, sem perceber

a vida que era pacata

 se encontra distraída,

flanando inocente

sob o olho do furacão.

Últimos pensamentos publicados no Face em em outros Blogs

Written By: Roberto - jul• 21•13

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A Arte resgata a alma da mediocridade.

Leia um bom livro. A Literatura pode lhe transformar em: um bruxo, uma prostituta, um monge, uma escrava egípcia, um guerreiro cibernético ou em um ser humano cheio de culpas e fraquezas, que, aliás, somos a maioria.

 Ser feliz não é meta.

Ser feliz não é uma meta e sim a conseqüência da vida cotidiana de quem está imerso no amor de familiares e amigos. No final das contas, é isto que conta

 Domingo à noite.

O bom guerreiro sabe que Domingo à noite é o período perfeito para limpar e organizar sua espada, deitar fora todos os maus pensamentos, extirpar do coração os  sentimentos  nefastos, resgatar o sagrado através da alma e preparar-se, enfim, da melhor maneira possível, para a batalha que recomeça na Segunda Feira.

 O Amor não pode ser mensurado.

O  Amor não pede garantias, fiança, certezas. Assim como também não tem fronteiras, limites, moldes. Ele apenas pode ser vivido, nunca definido, caso contrário deixa de ser amor e torna-se outro sentimento qualquer.

 No retalho do espelho.

 Às vezes, na correria do dia a dia, vejo meu rosto numa fresta de um espelho  qualquer e, uepa! – percebo que sou apenas um inquilino de mim mesmo. Mais dia ou menos dia serei despejado, como seremos todos nós.

 Quem ama não subjuga o outro.

 Quando tivermos a  capacidade de sentir  amor e compaixão pelos pássaros,  saguis e cobras, –  por um mendigo caído na sarjeta, por uma prostituta de beira de cais, por um adolescente escravo do crack  e até por um marginal, sem emitirmos julgamentos, – estaremos perto de entender os significados do amor e da compaixão;  amor e compaixão  de Krishna, de Buda  de Jesus, de Francisco de Assis, ou seja, o verdadeiro amor universal, não esta tolice pela qual subjugamos o outro, como se  propriedade  nossa fosse. Mas, estamos a milhares de anos luz destes nobres e verdadeiros sentimentos.

 Somos diamantes ou carvões?

 Sabe-se que o carvão e o diamante são obtidos da mesma substância, só variando o grau de vibração de suas moléculas. Assim somos nós, os humanos, uns são grosseiros carvões enquanto outros são finos diamantes.

 Nossa data de validade vencida.

 Infelizmente, ou felizmente, todos nós temos data de fabricação e data de vencimento. Podemos até caminhar mais um pouco com o prazo de validade vencido… mas o Universo é competente e nos leva embora, de uma maneira ou de outra, não tem choro nem vela.

 Quando ignoramos as estrelas.

A mente que está perturbada não consegue apreciar a beleza de um por do sol ou a sonoridade fantástica de um canário belga, mas pode passar oito horas, ou mais, por dia diante de um televisor.

 Conhecimento X Sabedoria.

Sabedoria não se aprende na escola nem nos livros, mas sim na contemplação pura  e simples da Natureza e na observação da relação entre os seres humanos.

 Conhecimento X Sabedoria II

O conhecimento pode ser obtido em questão de minutos, a sabedoria leva-se muitos anos para ser conquistada. O tolo pode ter muito conhecimento, mas nunca alcançará a sabedoria.

 O casamento.

 O casamento deveria ser como um violão, as cordas são independentes entre si, mas, unidas, produzem acordes maravilhosos. Cada um dos cônjuges necessita ter sua individualidade preservada.

 Os números do corpo humano.

 Quando decompostos em números, somos infinitos: um fígado,dois rins, cabeça, tronco e membros, vinte e três cromossomos em cada espermatozóide, cento e cinquenta mil fios de cabelos – e, sobretudo, milhões e milhões de dúvidas no coração, que, aliás, é um só…

Sejamos honestos conosco.

Written By: Roberto - jun• 28•13

ProtestoSe “um  de nós” já furtou  um saleiro da mesa de restaurante, levou  na mala uma  toalha bonitinha do hotel em que ficou hospedado, embolsou um chocolate no Carrefour e não pagou por ele, fez um “gato” na rede da Net para não pagar assinatura e ter sinal de graça, se já fraudou um seguro de automóvel, ou mesmo de saúde, emprestando a carteirinha para passarem em consultas no seu nome, se  comprou cds  e softwares piratas, saiu da balada sem pagar, estacionou o veículo na porta de garagem, em vaga de deficiente, furou a fila do banco e ficou rindo dos trouxas, pagou o fiscal para “aliviar” uma multa, subornou o guarda rodoviário, comprou drogas ilícitas (veja bem, não se trata de cd do Roberto Carlos – agora me matam!) possui um revolver em casa sem registro – às vezes embaixo do banco do veículo -, saiu dirigindo  à noite com 10 caipirinhas na cabeça, pagou o despachante para tirar os pontos da carteira de habilitação… Bem, a lista não termina nunca e a parte dolorosa vem agora: Como  este “um de nós” pode reclamar contra os políticos que são o espelho do povo, eleito por este mesmo povo? Temos que avisar a este “um de nós” do qual me incluo, que devemos reclamar sempre, mas  que também devemos aproveitar para rever nossas condutas como cidadãos para que nosso protesto seja mais verdadeiro e eficaz. É um excelente momento para promovermos estas mudanças;  externas e internas. Reforma política já!- mas também, reforma íntima. A palavra da vez atende pelo nome de  Honestidade.

O Corpo

Written By: Roberto - jun• 19•13

 

Pessoas - Feminino (88)

A nudez resplandece no espelho

os braços caídos, sem jeito

mudez nos gestos e pensamentos

o olhar finge evitar verdades obscuras

filtradas por pupilas azuis

desejos são abortados

  transmutam-se em cristais amorfos

o perfil denuncia o nariz aquilino

a boca só pronuncia silencio

os cabelos louros,

crescidos desde uma adolescência recente,

atingem o umbigo

 

no ventre, um botão de rosa tatuado

completa a  rica arquitetura corporal

da musa anônima.

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