Blog do Betusko

LITERATURA, CONTOS, POEMAS E AFINS

Poemas esparços

Written By: Roberto - ago• 27•11

SOLOS DE PIANO

O piano tocava, gemia baixinho
ora gritava alto e estrondoso
os dedos da menina corriam livres
as garças voavam pelo céu em semicírculos
círculos de naftalina na velha mala
vaso partido no fundo do quintal
cão pastor erguendo as orelhas
moço lendo jornal na varanda
livros velhos espalhados
por entre a estante nova
instantes de saudade e de repulsa
roupas largas sobre o corpo esguio da moça
seios cuidadosamente à mostra
óculos caindo de lado em nariz comprido
formas de bolos em contornos de coração
piano ao fundo solando Chopin
autos passando em baixa velocidade
refrigerantes, bolachinhas e canapés
pés inchados daquela senhora tão velha
lagartixa na parede do lado de fora
papéis amarelados de tanto esperar
lembrança do irmão que não voltou da guerra
na terra em que tem palmeiras mas não tem sabiás
fotografias antigas, rapaz bonito que era
o piano fremindo valsinhas ingênuas
o moço demorando um século em cada página
a moça impaciente, fazendo gestos lânguidos
o cheiro de peixe vinha de fora
o vinho era de procedência alemã
e o piano tocava alheio a tudo.

SEXTA FEIRA DE ABRIL

Tarde de sexta-feira:
Três pombos sobre a antena
Um chapéu esquecido no banco da praça
Duas moças conversando
Um pinguim de porcelana estilhaçado
Um vendedor de pamonhas chorando
Solos de clarinete
Lusitanos azulejos pixados
Um casal se amando
Sol de orgasmos violentos
Brisa na varanda
Rangidos de rede de corda
Água de coco e uísque
Ratos roendo memórias vãs
Insanos desejos de Abril
Portão de imbuia batendo
Mulher abandonando o marido
Gritos lancinantes de uma arara
Um ¨trinta-e-oito” nas têmporas
Um telefonema anônimo
E um estampido seco.
Já era.

 A ave vê a lua

Eu queria ser uma ave
um pintassilgo, um uirapuru
quem sabe um melro
só para assistir à tardinha
da ponta de uma chaminé
ou sob juncos de um pântano
a lua se desminguantizando.

Se ave eu pudesse ser
veria se canto melhor
com voz de canário belga
uma cantiga afinadinha
como essas que há por aí
nas barbearias e vendinhas
das ruas dos subúrbios
onde as aves revoam em bando
e os homens se embriagam
solitários e poéticos
nos balcões dos botecos.

REFLEXÃO SOLAR

A gema mole do sol
vai tostando, vai dourando
e em minha cabeça de.mente
são lançadas sementes de inspirações
somente vibra a ação
clandestinas pancadas
dinamitantes, ora surdas
zumbidos de abelhas
trotar manso de lobos
cacarejar de águia real
concordâncias e mistérios
e cítaras e castanheiras
e companheiros perdidos
em batalhas inglórias
e amores desintegrados
por íntegros sentimentos de culpa
espalhados pelo vento minuano
em folhinhas de calendário
que marcaram dias insones
semanas ordinárias
e os segundos seguidos de cólera
nos quais perdemos a razão
e somos cegados pelo sol.

 

A garça real

A graça da garça
está no bico
pico melancólico
voo solidário
visões mescladas de
um único unicórnio
solitário, perdido no mundo moderno
onde o ovo e a gema não se toleram
apenas se deixam fritar
em tristes frigideiras enegrecidas
carcomidas por décadas de vidas mal passadas
nos botecos, sob batuques e baralhos vermelhos
com os quais as ciganas enganam o futuro
e as cigarras em dia pós chuva
cigarram até estourar os pulmões
presas, às vezes, em maços de Hollywood
ou em línguas de sapos cururus
que mais tarde serão jantados
por surucucus famintas
famigeradas sedutoras
artífices de uma Eva vã
a fêmea fatal
como as modelos raquíticas
que pedalam
no parque do Ibirapuera
nas tardes de sábado
sob a sombra assombrosa
de magníficos pés de ipês
abrigos de ninhos da garça real.

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