Blog do Betusko

LITERATURA, CONTOS, POEMAS E AFINS

De pressão

Written By: Roberto - mai• 10•13

coruja branca real

 Cacos de mim, caídos na areia

são cascas de coco ao pé da escada

a esperar a redenção, a retomada,

o ronco do motor em ponto morto, entediado

fazendo contraponto com o pio da coruja albina

 a implorar que a marcha seja engatada

para a vida retomar seu curso natural.

 

Lascas de mim, dependuradas no varal

escapam e são lançadas ao léu

sopradas pela brisa noturna

mescladas entre  lençóis e reggaes

percebidos pela fresta da janela

daquele casebre antigo à beira-mar

a soluçar entre o vai e vem das ondas,

a balançar sob a cadência  da melodia abafada

e o tilintar das pedras de gelo no copo de uísque,

 prenúncio de uma noite infindável.

 

Religião? Não, obrigado!

Written By: Roberto - mar• 11•13

Até conseguir me livrar de todo e qualquer domínio da religião em minha vida, percorri um longo caminho. Nascido em uma família católica –  praticante por parte de pai, fui obrigado a cumprir alguns sacramentos como a Primeira comunhão, a Eucaristia – confesso que até gostava do sabor da farinha de trigo dissolvendo embaixo da língua – a Confissão e Penitência entre outros. Alias, eu nunca entendi como pode uma pessoa “pecar” muito e, em seguida ser perdoado através de uma simples confissão. Isto vira um círculo vicioso, o indivíduo até pode estar arrependido mas, a certeza da absolvição lhe oferece garantias para os próximos atos torpes e vis que certamente cometerá. Não seria mais justo avisar que todos os seus erros e ações indignas farão parte da sua vida para sempre? O fato de confessar-se não fará com que estas faltas sumam das gavetas do nosso ser em um passe de mágica. Por que não alertar que o propósito de nossas vidas e nos tornarmos cada dia melhor? O aperfeiçoamento diário é o caminho.

Mas deixemos estas considerações á cargo de Ítalo Calvino.

Bem, se estas dúvidas em relação ao Catolicismo já  faziam-me pensar muito no assunto, quando avancei nos estudos e entrei na adolescência dei de cara no currículo escolar com a descrição das atrocidades que a Igreja Católica cometeu durante a chamada Idade Média, sob o disfarce de Santa Inquisição. Fiquei estarrecido ao saber que Bispos acompanhavam – provavelmente com certo prazer -os torturadores enquanto os mesmos arrancavam os mamilos de mulheres para que confessassem a prática bruxaria (que alias não deixa de ser uma doutrina de cunho sagrado, a Wicca.)  

Com estas práticas hediondas, os inquisidores atrasaram o desenvolvimento intelectual e científico da humanidade em mais de 1.000 anos. Exemplos desta afirmativa se dão quando condenaram o filósofo-astrônomo Giordano Bruno à fogueira por   disseminar  “doutrinas subversivas” – leia-se Ciência.  Ou quando tantos outros intelectuais tiveram que admitir estarem errados – como Galileu Galilei (condenado por heresia em 1648 e inocentado pela Igreja em 1992!).

Fico imaginando se Platão e Sócrates tivessem vivido na Europa naquela época…  Arderiam na fogueira ou seriam despedaçados nas mesas de torturas, com certeza!

 Mais adiante, prosseguindo nos estudos da História, apresentaram- me às Cruzadas e, outra perplexidade – quantas mortes em nome de Deus!

Conquanto existam muitas lendas á respeito destas expedições “santas”, o fato é que a Cruzada dos Inocentes, ou das crianças, como foi conhecida, existiu e conduziu centenas de jovens á morte e á escravidão, visto que tal expedição não obteve êxito.

 Dando um salto enorme, chegamos ao século XXI e nos deparamos com o lamaçal em que se encontra atualmente a instituição católica: a proliferação de padres pedófilos, a corrupção no Vaticano – fatos que abreviaram o papado de Bento XVI, só para ficar com estas duas mazelas. Na tentativa de corrigir estas situações, alguns fiéis  perguntam por que a Igreja não permite logo que os padres se casem? Tal beneplácito diminuiria consideravelmente o problema de pedofilia e do relacionamento íntimo de alguns párocos com suas fiéis, algumas até bem infiéis.

 Inicialmente, declara-se que o celibato faz parte da constituição da instituição católica e que não há a mínima possibilidade de sua revogação. Ora, se analisarmos a questão sob o prisma da administração e economia, imaginem o que aconteceria se o Vaticano tivesse que dar abrigo e sustento não só aos padres, mas também ás suas mulheres e filhos? Educação, alimentação, plano de saúde, pensão para viúvas e órfãos, etc. A conta não iria bater e a riqueza da instituição se reduziria à situação de uma simples Associação, padecendo das peripécias para fechar a equação mais mundana que existe: Receita X Despesa.

Portanto, o casamento para padres passa longe do viés sacramental, pois o  “x” da questão chama-se grana!

 Assim, por conta destas e outras hipocrisias, considerei-me desobrigado de seguir a religião que meus pais me impuseram.

 Mas e quanto às outras religiões?

 Bem, nascendo no Brasil, filho de pais não judeus eu não poderia abraçar o Judaísmo – que é mais uma Etnia do que religião, muito menos o Islamismo (até porque não quero ser convocado para nenhuma “Guerra Santa”). Além do mais, esta historia da luta político-religiosa entre Judeus, Muçulmanos e Católicos,  em que todos querem se matar em nome de Deus, não me parece ser coisa divina. Religião que manda matar o próximo, tô fora!

Para seguir os preceitos da Religião Hindu falta-me a disciplina ascética. Ah, mas tem o Budismo e as demais religiões orientais. Bom,  o Budismo não é religião mas sim doutrina e, embora eu seja simpatizante dos principais preceitos, não pretendo assistir a cultos semanais, fazer votos, etc. –  no, no, no, baby.

 Tem também as religiões de origem africanas  que já fazem parte do sincretismo religioso brasileiro  ( lavagem da Igreja do  Nosso Senhor do Bonfim , celebração de cerimônia de culto a Iemanjá, entre outras manifestações). Bem, gosto muito do som dos atabaques e de algumas definições dos Orixás que me remetem às lendas da Mitologia Greco-romana, mas não sei se estaria apto a acompanhar os preceitos e rituais da Umbanda ou do Candomblé.

 Quanto ao Espiritismo, sinto informar que também não é religião e sim doutrina  criada pelo pedagogo francês Hippolyte Léon Denizard Rivail. Apesar de eu ser simpatizante de muitos de seus conceitos, estou longe de poder ser considerado espírita de carteirinha.

 Sobre as religiões ditas evangélicas,  derivadas do catolicismo, fico com um pé atrás quando me deparo com  o nome de alguns pastores brasileiros na lista da Forbes indicando os homens mais ricos do mundo. Até considero algumas destas religiões protestantes muito respeitáveis, principalmente as mais antigas, entretanto, de 40 anos para cá o surgimento de igrejas com novas denominações cujos templos com cultos teatrais de hora em hora tentam arrecadar o máximo de dinheiro possível e  o domínio das mídias  com seus pastores eletrônicos que exigem o pagamento do dízimo a cada 15 minutos me deixam imunes às suas pregações.

Enfim, quero ser livre de condicionamentos e crenças fechadas, Não quero ninguém dizendo que não posso comer carne de porco ( embora eu seja Vegetariano por convicção) nem que eu tenha que reservar o sábado para pensar na vida e não possa nem tocar violão. Muito menos quero que me digam que mulheres não devem usar calças, que o sexo antes do casamento é proibido e outras tantas limitações que mesmo aqueles que se dizem religiosos não observam. É o famoso jeitinho brasileiro do tipo, ah, não posso usar camisinha pois sou proibido de controlar a natalidade, mas vou utilizar para não contrair AIDS…

 Deixo claro aqui que respeito todos aqueles que discordam de minha opinião assim como respeito a crença de cada um.

 Bem, só resta agora  responder aquela pergunta tão polêmica: Mas você não acredita em Deus? E para o desespero dos Ateus e Agnósticos eu respondo com uma afirmação de cunho filosófico que reputo inquestionável: Tudo o que existe foi criado por alguém, portanto, tem alguma consciência universal que está por trás de tudo. Nada pode existir, nem planetas, nem Galáxias sem que alguém as tenha criado – de uma maneira que não podemos compreender totalmente. Não adianta vir com teorias científicas mirabolantes, pois não passam de terorias. Não se comprovou ainda o elo entre o homem e o macaco.

 Sim, Deus existe, nunca duvidei disto, não importa como o denominamos, mas  ele não criou as religiões, foram os homens enquanto se organizavam entre tribos e nações. É sabido que o Homem existe no planeta há mais de 40 mil anos e a religião, tal qual a conhecemos, há não mais de 6 mil anos.

 Portanto, vamos deixar o criador dos mundos fora desta discussão. E quando quero  relacionar-me com este ser perfeito, evoco a canção do mestre Gilberto Gil e dispenso os intermediários que as religiões criaram:

Se eu quiser falar com Deus
Tenho que ficar a sós
Tenho que apagar a luz
Tenho que calar a voz
Tenho que encontrar a paz
Tenho que folgar os nós
Dos sapatos, da gravata
Dos desejos, dos receios
Tenho que esquecer a data
Tenho que perder a conta
Tenho que ter mãos vazias
Ter a alma e o corpo nus.”

 

Batendo na porta do céu

Written By: Roberto - jan• 29•13

Anjos

 Duzentos e trinta e uma almas,

em fila indiana, batem à porta do céu,

duzentos e trinta e um jovens

purificados pela tragédia recente,

buscam abrigo e amparo

 na esperança de que o criador dos mundos

os receba de braços abertos

e derrame o bálsamo da consolação

nos corações dos parentes e amigos.

 

Duzentos e trinta e um anjos

 adentram ao Paraíso

sob a música de um sanfoneiro alado

que faz soar no instrumento

os acordes suaves da Asa Branca.

 

Que a paz esteja com eles!

Betusko.  Janeiro/3013

Germinação

Written By: Roberto - out• 13•12

 

Semente caída no mato

do ramo ao bico de um tiê-sangue

aponta  evidências puras

das potencialidades da vida

do anonimo trabalho das aves

do reflorestamento natural

do brilho da lua nas frestas da mata

a zelar pela vida latente

latejante no grão pequenino

solto na terra húmida

aparentemente abandonado

cumprindo com humildade o seu destino,

transmutar-se em quaresmeira.

Providência

Written By: Roberto - out• 13•12

A nuvem madura

deixa escorrer lágrimas

cedendo á súplica do solo seco.

 

 A semente  sorri agradecida.

Dançando sobre um 3X4

Written By: Roberto - out• 13•12

Cansado de ver o 3X4 dela  na minha carteira, rasguei-o em cem pedaços e pisoteei suas lembranças. Quem sabe assim eu conseguiria lhe esquecer, borrar do meu coração sua figura inesquecível seus olhos  azuis que derretiam desconfianças, seus cabelos de ouro que me deixavam hipnotizado, seu sorriso incandescente, indecente mesmo, com aquela pintinha marrom sobre o lábio esquerdo, apontando para o indescritível, aliás, lábios  onde vivi os melhores episódios daqueles tempos. E tinha também aquele jeitinho meigo de  dizer verdades  cruas e aquela mania de selar em meu coração todas as fissuras durante os anos em que fomos comparsas na vida.  Fiquei assim, absorto, sapateando sobre seus pedacinhos até a chuva chegar, fininha, abusada, lavando a calçada, levando o que sobrou do meu amor  para o bueiro.

 Ah, vida  “marvada”! Eu parecia o Fred Astaire, chorando na chuva…

Aleph

Written By: Roberto - abr• 18•12

 

 

Grãos de chuva fina
deslizando sob o vidro da janela
libertam o feixe de pensamentos
que a tarde fria insistia em obstruir
receosa em perder o domínio
de um momento melancólico
 
Como uma cunha em madeira de lei
encharcada pouco a pouco com água do mar
a quietude do momento
é assaltada
 
Um martelo açoitando uma bigorna
estremece os mais íntimos devaneios
entorpece a razão
não faz frente ao  chiado
do afiador de punhais
impecável em suas vestes brancas
manobrando a manivela surreal
 
Nestes momentos, o tempo
acena com uma pausa
providencial para impedir o surto
e, soberano senhor,
invertendo a ampulheta real
permite apenas o som singelo
da flauta transversal
em homenagem a Krisna.

 

Haicai

Written By: Roberto - mar• 01•12

xícara de chá
 sob o apito da chaleira
   entra em puro êxtase

 

Desvelando segredos

Written By: Roberto - jan• 09•12

Quando vi seus olhos

perdidos na luz da lua

percebi que éramos feitos

de pedaços de sombra e luz,

pressenti seus devaneios

seus suspiros contidos

perscrutei em seu semblante

seu jeito de dizer não e sim

permeei seus sentimentos

vasculhei as frestas de seu ser,

enquanto a cortina vermelha

dançava de maneira envolvente

embalada pela brisa do mar.

 

Mais adiante, na madrugada quente

respirávamos apenas  o  silêncio

e nossos poros exalavam

o mais puro perfume que há.

Fruto vivo

Written By: Roberto - jan• 07•12

 

 

 

Natureza quase morta

ganha vida no pincel

de um Van Gog iluminado

porém, de minha paleta acanhada

salta apenas o improvável:

um par de seios indecifráveis

aflitos sob a luz mortiça da tarde

que desenha sombras sobre a sacada

                                                               daquele velho sobrado de Olinda,

sempre disposto a um carnaval.

 

 

Agora a modelo viva,

 já com seu quimono vermelho,

largada sobre uma rede branca,

                                                                        espalha no ar abafado

o aroma de um cigarro de cravo

e se diz morta de cansaço,

sem forças mesmo

para degustar da melancia

e das mangas-rosa do cenário.

 

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