Blog do Betusko

LITERATURA, CONTOS, POEMAS E AFINS

Natal

Written By: Roberto - dez• 23•11

No ventre da nova cidade

brincavam os sapos e as serpentes

cujas bocas malpassadas e rotas

lançavam injúrias e chispadas.

Dançavam com olhos de fogo

os sapos e as serpentes,

cuspiam nos olhos do céu

pedaços de fim de ano,

ano longo, ano louco

ano sem estribos, sem tributos,

ano arrastado, puxado a dentes

cortado à navalha sem fio

ano banhado em ácido sulfúrico

sulfetos e brometos de promessas

feitas em cima de um pano vermelho.

 

Nos braços da nova cidade

dormiam os anjos e os capetas

que foliaram o ano todo

e agora, sem fôlego, sem fágolo

dormitam debruçando as cabeças

nos gordos seios da criadora.

De  suas bocas respingam os sonhos

de um futuro promissor, sem céu cinza,

sem céu náusea, todo mármore.

 

Fim de festa, braços dormentes

bocas cansadas de abrir e fechar

em  intermináveis trec trec.

Olhos pesados, apitos, pipos ao longe

sanfoninhas e cachoeiras cachentas

cheias de restos de todos os rostos.

Adeus! Adeus! Feliz! Feliz!

Enxurrada de catambas alegres.

 

Agora a grama está seca

ainda brincam os sapos e as serpentes de petas

ainda dormem os querubins e os duendes

e ainda gritam uns tantos outros:

Feliz! Felino!Um bom! Um nada!

Um tubo de estrelas minguantes

e longas conversas de bar e esquina,

quinas de mesas com longos pecados,

E agora­­? E agora?

Bem, só nos resta cobiçar o Ano Novo.

Autolapidação

Written By: Roberto - dez• 20•11

Toma nas mãos,

todos os dias

teu Malho e teu Cinzel

e trabalha, trabalha com vontade

na autolapidação

desbastando as impurezas,

cortando fora os vícios

e as fraquezas de caráter

para que um dia

resplandeça, limpo e puro,

tal qual um diamante,

o homem perfeito

que habita em teu coração!

Memória das garrafas do beco

Written By: Roberto - dez• 07•11

 

 

Montes de garrafas dormem ao pé do muro
cada uma tem uma estória para contar
a de champanhe promoveu toda contente
a comemoração do nascimento do filho do padeiro
a de cerveja afogou as mágoas de um torcedor inconsolável
mas o recipiente de vodka contou coisas  muito estranhas
sobre drogas e baladas com ciladas
a garrafa de vinho do porto aportou em vários jantares
tinha uma de licor de cacau
que consolou a solidão de algumas senhoras
aquela de uísque doze anos era a mais arrogante,
animou comitê político de deputado eleito
e a de refrigerante diet ficou pela metade, foi trocada por coca-cola
a garrafa verde de aperitivo não quis dar depoimento
dizem que serviu para envenenar um desafeto
mas a garrafa de conhaque animou o baile do risca-faca
estava embriagada com o som da sanfona
por fim, escondida entre as demais, uma garrafa de cachaça solitária
trazia ainda uma fita vermelha amarrada e o lacre fechado
com esta ninguém contou conversa…

Game over

Written By: Roberto - dez• 07•11

O tique-taque de seu coração
já não se hospeda mais em meus ouvidos,
ensurdeceu-me uma explosão prematura
com a força bruta de dois mil megatons
provenientes dos átomos precários
do nosso amor insuficiente
que tornou nossos caminhos bifurcados,
reféns de um par de óculos
com lentes bifocalmente trincadas
pelo embate inglório
entre a fome de viver,
visceral desejo -
e o muro intransponível
da sufocante solidão
que  instalou-se entre nós
através do percurso melancólico
de um cotidiano desprovido de surpresas,
desconectado de um compromisso original,
deteriorado como um sonho não realizado

e assim nos despetalamos,
ao sabor da brisa cálida
de uma manhã primaveril.

Espiritualidade, que bicho é este?

Written By: Roberto - nov• 24•11

           Vamos retroceder no tempo e imaginar a seguinte cena, ocorrida há 30.000 anos: Um homem pré-histórico, do período Paleolítico, sentado em uma pedra  em frente a sua caverna,  observa atentamente  a lua e as estrelas  na intenção de sondar a Natureza sobre a possibilidade de haver chuva no dia seguinte em que sairia para caçar. Instintivamente, ele ergue as mãos  para o alto e começa a dançar e emitir grunhidos como que pedindo a um ser superior que garantisse um dia ensolarado para facilitar  o seu trabalho no dia seguinte.

          Pois bem, este anseio é inerente ao ser humano, pois temos a necessidade de estabelecer contato com o “mundo invisível”  para receber orientações e consolo no caminhar de nossa vida.

          Neste ponto, começamos a identificar o sentido da Espiritualidade, da existência de  uma conexão da dimensão física em que vivemos com a dimensão de onde viemos, conexão esta que pode receber diversas denominações, conforme a crença de cada um. A partir deste ponto constatamos a existência do espírito e da matéria.

          Não devemos confundir Espiritualidade com Religião pois são temas distintos que podem, ou não, coexistir na mesma crença. A Religião é a tentativa do Homem de explicar aquilo que ele desconhece frente aos mistérios da vida; é o re-ligare com o mundo divino;  já a Espiritualidade é a capacidade de manifestação pessoal do ser humano em  conectar-se com esta realidade.

          Feita esta pequena introdução, vamos tentar definir o que se entende por Espiritualidade:

“A espiritualidade é o processo de um desenvolvimento pleno,

adequado, apropriado e harmônico das capacidades espirituais

do homem. As capacidades espirituais são aquelas relacionadas com:

(a) O intelecto ou a compreensão;  raciocínio, memória,

percepção e imaginação,

(b) O sentimento ou do “coração”, amor, intuição,

compaixão e bondade.

(c) A vontade ou volição; capacidade de iniciar e continuaruma ação.” William Hatcher ( filósofo contemporâneo)

          Outra concepção de Espiritualidade , bem mais concisa, nos é fornecida pelo líder Tibetano Dalai Lama :

“Espiritualidade é aquilo que produz no ser humano uma mudança interior.”

          Feitas as devidas apresentações do tema, podemos seguir tecendo considerações.

         Sendo assim, nos perguntamos: Quando estamos praticamos a Espiritualidade? Ao irmos, uma vez por semana ao culto a que pertencemos, para orar, ouvir palestras por uma hora e depois sair dizendo impropérios ao motorista ao lado, ou explodindo em raiva com os filhos por causa de assuntos banais? Ou quando damos atenção ao gari que varre a nossa rua, ou ainda, ao oferecermos o ombro a um amigo que acabou de perder um filho recém-nascido?

Questionando-nos assim, percebemos que vivenciar a espiritualidade é ter uma atitude cem por cento atenta à nossa melhoria continua e ao auxilio realmente interessado ao próximo.

          Por tratar-se de um tema que está sempre vinculado à Religião, temos a propensão de perceber a Espiritualidade como algo que vem de cima para baixo, que necessita de um “intermediário” capaz de nos conectar com a dimensão espiritual, como já foi comentado acima. Entretanto, vamos voltar ao tempo de Pitágoras, o filósofo grego, e sua famosa Escola Pitagórica, onde os ensinamentos filosóficos tinham como finalidade  promover a melhoria do ser humano. Seguindo  adiante na linha do tempo passamos por diversas instituições laicas que trataram do aperfeiçoamento o ser humano até chegarmos  aos dias atuais, quando temos, por exemplo, o Centro de Estudos da Consciência – instituição situada em São Paulo- que estuda o Espirito e a Espiritualidade desde o ponto de vista humanístico, sem vínculo religioso qualquer. Constatamos assim que a Espiritualidade é uma capacidade que esteve sempre presente em nossas vidas mas que, quase sempre, a ignoramos.

     Pois bem, entendo que o sentido da Espiritualidade se manifesta em nós em vários momentos do nosso dia a dia. Também reconheço que algumas práticas nos ajudam a vivenciar melhor nossa Espiritualidade, são elas:

1 – Cuidar do corpo e da higiene pessoal com vistas a manter a saúde; praticando atividades físicas, exercendo o controle da alimentação, esforçando-se para ter as horas necessárias de um sono tranquilo e revigorante, efetuando visitas periódicas  ao médico, e, sobretudo, procurando diminuir ou suspender a ingestão de bebidas alcoólicas bem como do uso do tabaco e seus derivados. Desnecessário dizer para fugir de toda e qualquer droga alucinógena. O corpo físico é um  templo  onde habita o espírito.  

2-   Fazer a profilaxia das emoções mantendo atividades como Yoga, Meditação, Tai Chi Chuan, entre outros. Emoções descontroladas como a inveja ,o ciúme, as explosões de raiva, euforia exagerada, nos tornam reféns de alto índice de stress o que ocasiona distúrbios físicos e psíquicos que acabam por afetar diretamente o nosso corpo físico, através de aumento das taxas de colesterol e triglicérides, entre outros,  pondo em risco o sistema cardiovascular e, principalmente, promovendo a diminuição da eficácia do sistema imunológico devido às glândulas endócrinas estarem trabalhando na capacidade máxima, portanto, sobre grande pressão. A meu ver, é impossível desassociar o físico do emocional, como bem preconizam as medicinas chinesa e hindu.

3 – Manter o bem estar mental, monitorando a qualidade de nossos pensamentos. Pensamentos que visam prejudicar o próximo, ou que incitem à prática de atitudes desonestas são pensamentos que nos levam à decadência moral. Diz o ditado popular: “ você é o resultado dos seus pensamentos”. Vamos, portanto, mudar a frequência de nossos pensamentos evitando o assédio de noticias sensacionalistas, tragédias, banditismo, etc.,  que não nos trazem benefício algum, ao contrário,  nos induz ao tormento mental.

Uma excelente prática, além da meditação e da Yoga é a realização constante de orações sinceras. Quando digo sinceras, estou excluindo as orações padronizadas e mecânicas que são na verdade apenas ladainhas. Orações sinceras brotam do coração e servem para agradecer ou pedir ajuda  em favor do próximo. É prática salutar orar ao despertar e ao deitar-se, fazendo um apanhado de todos os nossos atos, emoções e pensamentos ocorridos durante o dia.

          Além desta prática, existem os passatempos saudáveis, como por exemplo, ouvir música de boa qualidade ou ler livros que nos induzam a trilhar o caminho do bem.

          Assim, verificamos que uma atitude mental desequilibrada pode afetar o emocional que por sua vez afetará o físico.

         Em resumo,  praticar a Espiritualidade nada mais é do que empenhar-se na melhoria continua como ser humano e levar em conta sempre o bem estar do nosso próximo. Não há misticismo nem religiosidade necessariamente envolvidos, basta ter o bom senso sempre afinado.

Cartão maravilhoso de Sonia Regina

Written By: Roberto - nov• 07•11

Gavetas Purificadas

Written By: Roberto - nov• 06•11

Hoje acordei justiceiro

com fome de arrumar as gavetas

 que vivem sempre abarrotadas

de coisas sem valia, sem perdão

cujo prazo de validade ficou para trás,

sendo assim condenadas

ao cesto implacável da cremação,

 

são fotos  sem enquadramento

sem pé nem cabeça,

são porcas e parafusos enferrujados

 que habitam, há anos, em um tupperware lacrado,

são contas e mais contas pagas e amareladas

cansadas de esperar pela audiência

de um único credor desconfiado,

são receituários antigos de médicos tão velhos

que já não curam a urticária, quanto mais a ansiedade,

são receitas de bacalhau que nunca viram a luz do sol

muito menos o fio de azeite dançando

sobre  suas postas imaginárias,

são baterias semi descarregadas

atracadas com aparelhos de celulares pré-históricos

com rabichos e rabichos de carregadores

que por não se encaixarem aos demais equipamentos

 tornaram-se casmurros e solitários,

são  calças e blusas magras de marré de si

que só fazem lembrar de um passado Zero Cal

longe das bombásticas tentações achocolatadas,

são emoções baratas que já não surtem efeito

neste velho coração  bandoleiro

cansado de películas antigas em VHS,

são superstições tão bobas, de um garoto suburbano

 que não fazem frente

ao menor dos sintomas de um TOC,

são roupas vermelhas e brancas

de uma era em que se acreditava em Papai Noel

e em políticos  politicamente corretos

que não tripudiavam sobre caseiros ingênuos,

ou secretárias sagradas,

nem roubavam merendas escolares;

são esperanças envelhecidas e malsãs

de um dia ganhar o mundo à revelia

 fincando uma bandeira em cada canto do planeta

 

e tem também a gaveta dos projetos esquecidos

dos anseios  desnecessários

das canções abandonadas e sem festivais

e, sobretudo, o último compartimento  em desalinho

aquele dos amores acontecidos

do qual, sem antes titubear,

 rasguei uma foto de Maria

cujo verso mentia em letras garrafais:

te amarei por toda a minha vida…

Narradores na contramão

Written By: Roberto - out• 17•11

  Era uma manhã ensolarada de domingo. Alzira estava sentada no Jet Ski tentando religar o motor de partida quando sentiu a pancada violenta na nuca. Acordou três dias depois em um quarto de hospital, tentando decifrar quem era e porque estava ali. Não reconhecia nenhum dos rostos que sorriam para ela. Também não ouvia sons; era refém de um silêncio angustiante. Tentou erguer-se mas não sentia seu corpo da cabeça para baixo. Após um quarto de hora voltou a mergulhar na penumbra do inconsciente.

     Foi quando acordei e me vi presa ao leito por um esmorecimento total. Na verdade, eu não tinha controle de meus movimentos mas estava lúcida e sem dor. A primeira coisa que fiz foi tentar gritar para chamar a atenção de alguém. Tudo em vão, a boca não abria e as palavras não percorriam o trajeto necessário para a finalização. As gotas translúcidas continuavam a descer pelo tubinho da sonda. Pensei: _ Putz, morri, agora vão chegar aqueles seres cor de lençol e me levam daqui. Não, ninguém chegou. Fiquei ali, na mesma situação até  o amanhecer. Acho que adormeci e acordei várias vezes. Tive sonhos cômicos e pesadelos horripilantes.

     Na manhã seguinte, aos poucos Alzira foi reconhecendo a senhora que estava a seu lado, cujos olhos vermelhos vinham de um choro continuo. Era sua mãe. Também havia um rapaz franzino, sentado com as pernas cruzadas, vestido todo de preto – seu irmão, com uma bíblia entre as mãos.  

     Ainda não conseguia falar, mas já compreendia o sentido das palavras. Sua mãe  debruçou-se sobre ela e alisou seus cabelos. Sentiu um perfume forte de creme hidratante misturado com odor de esfiha de carne. Teve ânsia de vómito neste instante. De seu irmão, intuiu que ele havia se masturbado pois exalava um cheiro de esperma misturado à fragrância de água de colônia.

     Por um instante pensou que vivia um pesadelo Kafkiano e havia se transformado em um animal felino, por causa do seu olfato aguçadíssimo. Queria se comunicar com a mãe mas como o peso das pálpebras era mais forte que o desejo, adormeceu.

     Acordei novamente com o por do sol faiscando nas frestas da persiana. Os dois vultos à minha esquerda tomaram forma: minha mãe e meu irmão mais novo. Logo percebi que havia sobrevivido a não sei o que e já sentia o dedão do pé direito formigando. Olhei para minha mãe e falei: _ Ya de longo rategundes! Minha mãe não entendeu nada._ O que foi minha filha? –Disse  abraçando-me e beijando minha testa. Notei então que eu pensava uma coisa e de minha boca saia outra. Olhei para meu irmão que folheava um grosso álbum de fotos de uma banda do tipo emo, chamada  Funeral e disparei: _Hunda noguta mamabro! Meu irmão riu, sem entender nada, obviamente.

      _Caraca!- pensei, acho que não vou mais conseguir me comunicar através das cordas vocais! – Quem sabe se posso  teclar e me fazer entender? Então fiz um gesto a meu irmão pedindo que trouxesse meu notebook. Depois sobreveio a escuridão novamente.

     No quinto dia de internação, Alzira já se recostava na cama, apoiada em dois travesseiros. Trazia um tablet  de marca Ipad nas mãos e mostrava-o a seu irmão, após terminar de escrever uma pergunta. O irmão leu, retirou o fone do ouvido, sorriu e lhe contou que o mastro de um veleiro lhe acertara a cabeça em cheio, naquele domingo de regata na represa do clube.

     A mãe não estava no quarto neste momento e só então Alzira percebeu que havia outra paciente na cama ao lado. A moça estava dormindo e trazia no semblante uma expressão tranquila. Em seguida uma enfermeira entrou com a bandeja de medicação e, após aplicar-lhe uma injeção, ajeitou o dreno no braço de Alzira que adormeceu cinco minutos depois.

     Percebo que já faz uma semana que estou neste quarto e meus progressos de adaptação continuam lentos. Meu olfato voltou ao normal mas não consigo sentir o gosto dos alimentos. Vou ter alta amanhã, entretanto, ainda não consigo falar. O neurologista me disse que estes sintomas podem se estender por mais algumas semanas. Por enquanto só consigo me expressar através da tela de lcd.  Porém, penso que a moça ao meu lado está pior do que eu, pois abre os olhos mas não reage a nenhum estímulo; e além do mais, ninguém vem visitá-la. Agora parece que adormeceu novamente.

    Na manhã chuvosa da segunda-feira, Alzira se mostrava bem disposta mas  teria que deixar o hospital em cadeira de rodas. A mãe, o irmão mais novo e o dono do veleiro que causou o acidente estavam lá para auxiliá-la. Inclusive o rapaz se dispôs a pagar as despesas extras que o plano de saúde não cobrira.

     Agora, o irmão tinha acabado de instalar em seu tablet um programa que lia em voz alta (com sotaque norte-americano) as frases que Alzira digitava.

_ Ué, mãe, cadê a moça que estava do meu lado? Perguntou, apontando para a cama vazia, enquanto se preparavam para deixar o aposento.

_Não filha, esta cama é para acompanhante, nunca teve ninguém ali, as vezes em que dormi aqui com você fiquei na poltrona.

     Naquele instante, ouvi algo como um estalo no ar e entendi que o narrador gritou: _Puta que o pariu, agora bagunçou tudo! Concordei com ele e fomos saindo corredor afora, os dois confusos mas esperançosos de que dali brotaria um texto a duas mãos, ou no mínimo, uma boa amizade.

 

O amigo Jorge Xerxes sugeriu um final diferente, que, apesar de fugir do tipo de narrativa Conto Fantástico – onde o inusitado e o absurdo dão a tônica, mudou a configuração do enredo. Desde já agradeço a colaboração deste estimado contista:

     Naquele instante, ouvi algo como um estalo no ar e entendi que aquela moça na cama ao lado era, em verdade, meu próprio duplo etérico preparando-se para abandonar o corpo. Por isso, a medida que eu me restabelecia, ela parecia mais tênue. _Ufa! Essa foi por pouco, exclamei com aquele sotaque norte-americano através de meu tablet. O meu irmão sorriu – ele vive sorrindo – voltou-se para mim e perguntou qual a causa daquele súbito espanto. _Deixa prá lá, você não entenderia (e agora fui eu que sorri :-)

 

Castidade castigada

Written By: Roberto - out• 17•11

Tantas tentativas tímidas

somente sons sibilantes,

foi ficando fiapado

olhando ondas ordinárias

ponderando poéticos pensamentos

averiguando aves ávidas

ruminando  roucos rumores

mentalizando minguadas mensagens

enfim, evitando enganos

ah, amor amordaçado!

 

Canção da manhã

Written By: Roberto - out• 06•11

Nuvens de poeira na estrada

jipe serpenteando

multidão de bóias-frias em marcha

sol nascente se espalhando

quero-queros em revoada

gado ruminando no pasto

galões de leite fresco  nas porteiras

ribeirão cantando  sobre os seixos

suave ranger de rodas de carroça

galo  cocoricando no galho do abacateiro

aboio de peão barítono apaixonado

brilho e tilintar das enxadas e das foices

pés de cafés sendo colhidos

som de berrante potente

abafando todos os outros sons,

tudo na mais perfeita ordem

e  eu, voltando do baile

com a viola nas costas,

chutando as pedras do caminho…

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