Blog do Betusko

LITERATURA, CONTOS, POEMAS E AFINS

Quase um poema

Written By: Roberto - set• 18•11

chove na madrugada quente

coração e mente estão atentos

sob a luz tênue do abajur

os versos vão sendo destilados

em temas insuflados  de nós esotéricos

como em um rosário de contas de vidro

cujas esferas perfeitas

rutilantes e benfazejas

rejeitam as asperezas da vida

e acolhem apenas o justo e o perfeito

aos protótipos de um texto cru

 

da ponta suave da esferográfica

nascem pedaços de aliterações

e gráficos e nacos de alegorias órfãs

ecos descalibrados de emoções

a sobrevoar o campo fértil

quadrante de um lirismo enviesado

alinhavado a um desejo de mover

resquícios de uma inspiração primaveril

 

porém, tudo  agora urge,

 a chuva se avoluma

e o poema suplica seu fim.

Baquelite queimado – Micro conto

Written By: Roberto - set• 12•11

                                              CHEIRO DE BAQUELITE QUEIMADO

Assim que o galo cantava pela primeira vez, seu Jaime se levantava. Botava água na chaleira para passar o café. Acendia o rádio de válvulas e sintonizava no programa de moda de viola. Só então, limpava as gaiolas e tratava de seus canários. Reinava esta rotina há mais de vinte anos. Até que certa manhã de inverno, igual a tantas outras, a vida do velho sertanejo enveredou-se num rumo sem volta. Naquelas paragens agrestes, a noite caiu suave e gélida. Seu Jaime permaneceu o dia todo estancado embaixo do batente da porta de entrada de seu casebre; os olhos fixos no horizonte. Sob os pios do coro dos pássaros agitados que se misturavam à abertura solene de  o Guarani – na Voz do Brasil-, a lua cheia mirava um homem mergulhado no outono de sua vida, refém de um surto de Alzheimer. Enquanto isso, a fumaça emanada pelo cabo da panela queimado empestava o ar e defumava aquele cenário inesquecível.

Impreciso coração

Written By: Roberto - set• 10•11

Eu chovo, tu choves,  ela neblina

pobre de mim, criatura insensata

lavei os medos e os sentidos todos

naquele aguaceiro sem fim

deu dó ter esquecido os compassos

daquele velho fado lisboeta

pois que os dedos já não alcançavam

a velocidade necessária ao bandolim

enquanto o coração entristecido

fazia de conta que ainda era Abril

e as andorinhas saudavam o poeta

na sua passagem matutina rumo ao porto.

 

Eu calo, tu calas, ela chora

um lamento pequenino e cortante

uma dor  que se oculta em esperanças

perdidas no cume de uma montanha

onde sábias ovelhas observam

nossa pseudo-sabedoria humana

dissolvida em crenças arraigadas

e goles e mais goles de vinho tinto

num piquenique interminável

em meio a uma paisagem surreal

surtada em inspirações impressionistas

psicodelicamente embriagadas.

 

Eu movo, tu moves, ela foge

A música da criação

Written By: Roberto - set• 10•11

som das batidas de um coração

soam lembranças de velhos tambores

tombam por terra conceitos antigos

sobre homens, lutas e seus valores,

do universo em formato de umbigo

costurado por lendas mitológicas

filosofias e religiões

precedidas por evocações mágicas

que sopram a sístole e  diástole,

percursionistas dos corpos humanos

entregues a um frenético ritmo

da natureza de todas as coisas

seguindo as pegadas da criação

 sons e silêncio buscam seus espaços

á partir  do útero germinado

onde a semente da vida se hospeda

com toda a sua musicalidade.

Segunda divisão

Written By: Roberto - set• 10•11

a bola bate na trave

o centroavante bate  a mão na cabeça

o flash do fotógrafo bate na cara assustada do goleiro

o juiz bate no cronômetro e ergue a mão para cima

o coração do torcedor em desespero  bate e para,

foi fulminante,

o corpo do rapaz bate no alambrado e cai.

Viuvez

Written By: Roberto - set• 10•11

antúrios, avencas e samambaias,

ilustram a vida de Maria

dependurada, envasada,

prisioneira de um xaxim

refém da solidão e da esperança

o pequeno jardim acolhe a todos

e não somente a Eva sem Adão,

oculto sob o quintal do apartamento

o resquício do Éden

não presencia apenas lamentos e suspiros

também contempla conversas filosóficas,

névoas exaladas de charutos e cachimbos

a entrelaçarem, às sextas-feiras,

com fios formosos

 de fumaça de incenso de sândalo

e baforadas lânguidas de narguilé

sob o tímido tilintar

das pedras das contas de vidro

de um rosário singular

e  nos dias de alegria

choram cavaquinho e bandolim

 com flauta, pandeiro e violão

em homenagem ao velho Jacob

com saliências de um jazz nacional

repleto de malemolência e contrapontos

mas sem perder o tom do sagrado

É noite

Written By: Roberto - set• 07•11

É noite, os cães latem

todos os cães,

os amantes partem,

todos eles se vão

a lua quase morta de minguante

anuncia que hoje é segunda-feira

dia de apascentar o espírito

de apalpar os calos do coração.

 

É noite, os anjos descem

todos os anjos baixam

e sob a batuta invisível tecem

um pano com tramas astrais

para socorrer os atormentados

os apaixonados, os enfermos

e, sobretudo, os poetas cansados

que se recolhem ante ao torvelinho

de latentes emoções virais.

O pulsar do tempo

Written By: Roberto - set• 04•11

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relógios quebrados
não marcam o tempo
apenas congelam a vida,
suspendem a ação e a reação
assim como um astrolábio
poeticamente regulado
nos conduz por mares
nunca dantes imaginados,
– nem por piratas
ou pescadores de sonhos
ainda mais por um alquimista
que insista em converter
seus cadinhos mágicos
em vasos com flores de abril
para que os pássaros
e as abelhas
tenham garantido o ganha-pão
e não sejam forçados a abandonar
o seu território livre
em pleno solstício de verão
enquanto o xamã solitário
observa do alto da montanha
o firmamento estrelado,
ouvindo o assobio do vento
embalando solenemente
a dança de um ciclone

e neste instante sagrado
a areia escorre precisa
por entre as paredes frágeis
da ampulheta da vida
marcando o compasso do tempo
que o relógio inválido
se nega a registrar.

348 porcos

Written By: Roberto - set• 04•11

Trezentos e quarenta e oito porcos acabaram de entrar na minha cabeça. É  porco como o quê, seu moço!  Entraram aos pares alguns, outros sorrateiros e solitários, dançando tango, sim, ao som de Piazolla. Alguns  se imiscuíram em bandos, deturpando as regras rígidas de Noé. Outros  adentraram em casais, com a imagem  em câmara lenta, ao som da trilha sonora de “2001 – uma odisseia no espaço”. Diversos animais vestiam camisetas com estampas de políticos –  arre-égua! Tinha cada tipo… A novidade mesmo, foi se arremessarem os três porquinhos puxando uma rena. Teve porco que entrou feito feijoada, aos pedaços, se desmilinguindo todo. Um porco com bata branca e cajado cantava um hino e fazia coreografias da Broadway, outro, com cara de jaca insistiu em entrar de skate deslizando pelo lobo frontal. E teve ainda: porco espinho, porco armado com “três oitão”, porco dançando o  funk da periferia. Ainda não falei do porco que tinha vertigem e entrou vendado, nem comentei sobre aquele que portava asa delta, daquele com roupa de Batman e por último, do porco que foi cuspido por um canhão. Contei um a um, trezentos e quarenta e oito…
Foram invadindo meu cérebro, minuto a minuto, hora após hora até que o rádio relógio acenou com seus rubros dígitos efervescentes, ás seis e três da manhã. Recolhi os três comprimidos que estavam no pires da cabeceira da cama, Aripiprazol, Clozapina e Haldol,-  todos assim em ordem alfabética crescente- e os engoli, um a um, como um bom menino, sem ninguém mandar, entoando um mantra e rezando uma Ave Maria para cada cápsula ingerida. Era quarta-feira, ainda. Bom mesmo era na sexta-feira, dia dos coelhos…

O piano de Thelonious Monk

Written By: Roberto - set• 04•11
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As brancas e as negras são lascas mágicas de marfim a produzir sons inimagináveis, cujo eco puro e cristalino, escorregava pelas ruazinhas
de uma New Orleans acanhada, mas não menos empolgante, berço do novo Jazz.
Os negros dedos de Thelonious trançavam sonhos e ilusões
na enfumaçada casa noturna onde os acordes dissonantes magnetizavam os ouvintes, os passantes e aqueles que nem ali estavam, mas que nem por isso deixaram de sorver, com paixão, a derradeira apresentação do mestre.
Após este lendário evento, seu piano emudeceu.
Durante seis anos Thelonius olhou para o piano e o velho instrumento retribuiu o olhar em silêncio e súplica, até que as cortinas desabassem lentamente sobre vida do gênio.
Dizem que o piano ainda está lá, silente e repleto de lembranças.

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