Blog do Betusko

LITERATURA, CONTOS, POEMAS E AFINS

Iniquidade

Written By: Roberto - set• 04•11
Google“chacina na Escola Municipal Tasso da Silveira RJ”

sorrisos incandescentes
sobrepõem-se à angústia
torniqueteiam aflições
retardam o tremor das pernas

bocas escancaradas
encobrem saudades
fracionam turnos de solidão
selam bolsas lacrimais

a gargalhada ainda ecoa no pátio
onde em fila indiana
os doze apóstolos pequeninos
aguardam ansiosos o retorno ao céu.

Folhas mortas

Written By: Roberto - set• 04•11
Google

As folhas mortas
desenham um balé
sob o redemoinho
girando, girando
na cadência de Éolo
sonhando, sonhando
na canção do vento.

Com vários formatos
e tons multicoloridos
os dejetos da Primavera
estão livres para brincar
e como são leves,
alcançam rapidamente
as pesadas portas do céu
e fazem a festa
com os querubins
sob o olhar complacente
da Lua e das estrelas
que ouvem as trombetas
solenemente anunciar:

O Outono chegou!

Sobre símbolos e signos

Written By: Roberto - set• 04•11

Ideogramas vermelhos
alinhados sobre a pele alva
transmitem verdades orientais,
transmutam vontades urgentes
aplacam a fome dos olhos
mas da alma ingênua,
latinamente aventureira,
não saciam os desejos
nem repelem os desvios
dos caminhos bifurcados
salpicados de amor e sexo
temperados com a magia
do sal que brota das lágrimas
ora com o sumo doce da saliva

Versos de Lao Tse
requerem costas largas
e mãos firmes no traçado
para inserir na carne
a sabedoria solene,
subindo e descendo
no corpo da jovem,
desde o umbigo às nádegas
do coração ao espírito
do espinho ao caule

Estas pichações na epiderme
perfuram os órgãos vitais
dos incautos navegantes
deste mar turbulento
a que chamam vida,
e assim sucumbimos,
todos nós,
na vã tentativa de decifrar
símbolos e significados
sem termos a devida competência.

O portão do juiz

Written By: Roberto - set• 04•11

Josevaldo chegou cedo ao sobrado do doutor  juiz. O homem falou que queria o serviço terminado até as cinco da tarde. A casa da Rua Harmonia, no bairro da Vila Madalena pertencia à mãe do doutor. Separado da esposa por incompatibilidade de gênios, seu magistrado voltou a morar na casa dos tempos de sua solteirice.

- Mãe, não se preocupe que vou dar uma geral neste museu. Disse o filho á mãe bem idosa

 Resolveu por começar trocando o portão de ferro da entrada da garagem. Aqui entra o Josevaldo na história, pela porta da frente é claro.

 - Josevaldo, meu filho, quero este portão velho no chão e o novo instalado para ontem, viu? Disse o juiz imitando o sotaque de nordestino, enquanto apertava os óculos contra os olhos miudinhos.

Como o misto de pedreiro, serralheiro e azulejista tinha cinco bocas para alimentar, morando bem para lá do bairro de Guaianases, na periferia de São Paulo, não contou conversa.

- Deixa comigo doutor juiz, é dois palito e o portão novo tá aprumado!

 Pois é, o juiz do Fórum da Barra Funda estava com seu Pajero Full Zero quilômetro em frente à casa, aguardando o término do serviço. Contava que até a noitinha já poderia guardar seu valioso veículo na garagem, porque na rua não podia dormir, não. Sabe como é, apesar do alarme instalado, existem pessoas que só por maldade riscam a pintura com um prego, caco de vidro ou coisa que o valha.

- Cruz credo! Seu doutor até se arrepiava ao pensar nestas coisas… Pintura perolizada, o bicho na oficina sofrendo reparo… Arre égua!

 Josevaldo largou a sacola na garagem e não se fez de rogado, sentou logo a pua no trabalho. Era sábado e com o dia beirando aos trinta graus de temperatura, o pedreiro suava em bicas.

Para arrancar o portão antigo gastou quase três horas. Não contava com a dureza do concreto velho nas colunas. E dá-lhe marretada atrás de marretada! Tac! Tec! Toc!

Vez por outra, seu doutor botava o cabeção para fora da janela e arreliava:

- Olha, olha, Josevaldo, se você não trabalhar direito eu não pago, viu?

Outras vezes a ameaça era pior:

- Se não ficar pronto, você não vai mais construir meu sítio novo lá em Santa Isabel, falei?”

Puxa vida, isto era tudo o que o pedreiro não queria. Contava com esta obra para ajeitar a vida do filho mais novo, o Rosevaldo, que nasceu com uma deformidade genética no braço direito e já estava passando do prazo para fazer a cirurgia corretiva. Era um dinheirinho imprescindível, logo agora que estava uma paradeira geral por causa da crise…

Josevaldo enquanto ouvia os impropérios de seu doutor, levantava a cabeça e fazia o nome da cruz.

A tarde avançou rapidamente. Nem deu tempo de Josevaldo almoçar. Suas pernas tremiam um pouco, mas, como ele dizia “vamo que vamo!”

 - Diacho, eu devia de ter trazido o Toinho para me ajudar, agora tô lascado! Resmungava o operário.

Seis da tarde o magistrado irrompeu irritadíssimo no “canteiro de obras” para fustigar mais uma vez nosso humilde obreiro

- Porra, criatura! Você vai me deixar na mão! Olha a chuva que vem por aí! Gritava o patrão, com as mãos sujas de pasta de amendoim que escorriam do meio do pão francês mordiscado com prazer. Nem bem terminou de vituperar, os pingos grossos começaram a enlamear a calçada.

-`Tá que o pariu! Gemeu Josevaldo já entrando em desespero.

-  São 8 horas da noite e eu ainda estou aqui. Ai, meu padim padre Cícero!

 A chuva forte não dera trégua. Mesmo coberto com uma grossa capa plástica, os olhos embaçados pela água e pela fome não deixavam o pedreiro terminar o serviço. E tal qual o mitológico Prometeu acorrentado, o pobre homem era torturado sem perdão.

Após terminar de comer a famosa bacalhoada de sua mãe, seu doutor nem palitou os dentes e já foi crescendo para cima do pedreiro com carga total:

- Cacete, seu porra! Anda com este portão que eu tenho que guardar meu carro logo. Já são dez horas da noite e a rua está cheio de nóias. Se triscarem no meu Pajero você está fodido, entendeu, f-o-d-i-d-o!”

 Agora a chuva diminuiu, quase parou, mas o corpo de Josevaldo já não respondia direito aos seus comandos. Faltava apenas encaixar o novo portão nos pinos, mas qual o quê! As mãos trêmulas não ofereciam a firmeza necessária.

 Seu doutor veio pela última vez maltratar o infeliz obreiro. Desta feita nosso herói já não atinava com as idéias. Ele observava atônito a bocarra de seu doutor que abria e fechava emitindo um rosnado a  emplastar de sofrimento o ar ainda quente. Josevaldo pensava nos filhinhos, pensava na mulher que o estava esperando, pensava na falta de crédito do aparelho celular, pensava no boteco da esquina de sua casa, os amigos jogando sinuca… Eis que o portão novo, escorrega das mãos do pedreiro e cai por cima de seus dois pés, esmagando os metatarsos e as falanges de uma maneira bestial. Daí por diante, os sentidos se esvaíram e o nosso super-homem tomba desmaiado. O vizinho da casa em frente vem ver o que acontece. A sirene da ambulância afasta os veículos dos jovens de classe alta que produzem um tráfego infernal no sábado á noite.

 Dizem que Josevaldo deu sorte na Santa Casa de Misericórdia e entrou logo para o centro cirúrgico.

 Meia noite seu doutor toca a campainha do vizinho ao lado que jogava cartas na sala com seus amigos.

- Vizinho – era assim que ele chamava a todos da vizinhança -, será que posso guardar meu carro na sua garagem por esta noite?

- Ora, não tem problema, dr. Paulo, minha mulher está para o Guarujá e o meu mais velho está em Ibiuna com a namorada, tem duas vagas, fique á vontade!

 Finalmente, seu doutor chama o vigia da rua, pede a ele para encostar o portão no vão da garagem e diz, estendendo-lhe um panetone que sobrara das festas de fim de ano:

- Dá uma reforçada na vigilância para mim, tá bom?

_Ô, chefia, não tem de quê, deixa comigo! Vou ficar de olho. Na sua casa ninguém se mete a besta, não!

_ Obrigado Nelsinho, agora vou dormir que estou só o pó da rabiola. Boa noite!

_ Boa noite, dr. Paulo.

Adjetivos e substantivos

Written By: Roberto - set• 04•11

constelações de pensamentos insensatos
sinalizam desejos inexplicáveis
que, sem fazer cerimônia,
adentram o coração dos poetas
dos loucos e dos librianos
como querendo inflar uma canção
que brote do fundo
de uma lata de óleo vazia
esquecida ao pé de um cajueiro
vergado sob o peso de seu fruto
abundantemente maduro
mas imprudentemente temporão
deixado para trás
como quem dá as costas aos traidores
aos amigos que abandonam
suas mulheres grávidas,
às idéias que não mais funcionam
aos adjetivos envelhecidos e malsãos
que cuidam de empobrecer a poesia
e por si mesmos
são descartados ao acaso,
na poeira das constelações

mas ao serem tocados pela magia do Universo
retornam vivificados e exuberantes
na forma inexplicável da inspiração.

Perdas e ganhos

Written By: Roberto - set• 04•11

Andar, correr, subir ladeiras,
Abrir a boca e escancarar a garganta
Para aparar as gotas gorduchas da chuva
E fazer o coração reiniciar a nova viagem rumo ao sonho,
Gritando em lá maior, com a aorta meio torta
De tanto levar porrada da vida, de tanto tentar crer
Que a esperança é a fé no olho pequenino do bebê-propaganda
É a crença de que sempre haverá uma rede armada sob o trapézio,
Que Nemésio, em sua bike azul, baterá amanhã cedo em nossa porta
(Para trazer o pão nosso de todo dia, fumegando de lembranças)
E partirá assoviando um samba da trilha da última telenovela.

Dançar, cantar, tocar violão madrugada adentro
Para os bêbados e os cachorros de subúrbio
Ouvindo o murmúrio dos motores dos caminhões
Que desfilam pela estrada longa e intangível
Onde os andarilhos e os trilhos dos trens
Cruzam-se e afastam-se como o Amor e o Ódio
Como as moléculas de sódio das espumas do mar
E as algas sem-vergonhas, cheias de calor.

Recostar-se, meditar, ensaiar o último pensamento
Esquadrinhar os prós e os contras, as perdas e os ganhos do dia
E dormir, dormir profundamente.

A Zé Rodrix

Written By: Roberto - set• 04•11
Almino

E agora, amigo Zé?
Este caminho sem volta
só nos causa revolta e dor
esta passagem apressada
viagem ao Oriente Eterno
sem validar passaporte
assim, feito gato fujão.

E agora, irmão Zé?
Cadê a chave da casa?
Aquela do campo das flores
onde os livros e os discos
continuam a sua espera
e a Esperança ainda está de óculos.
É lá que os amigos lhe aguardam.

E agora, Zé companheiro?
Mestre na arte de compor
autor de livros diversos
amigo da Arte Real
só nos resta o desejo
que o Grande Arquiteto, lá de cima
lhe empreste um violão e um notebook
e não nos deixe órfãos de suas canções.

Garça real

Written By: Roberto - set• 04•11

A graça da garça
está no bico
pico melancólico
voo solidário
visões mescladas de
um único unicórnio
solitário, perdido no mundo moderno
onde o ovo e a gema não se toleram
apenas se deixam fritar
em tristes frigideiras enegrecidas
carcomidas por décadas de vidas mal passadas
nos botecos, sob batuques e baralhos vermelhos
com os quais as ciganas enganam o futuro
e as cigarras em dia pós chuva
cigarram até estourar os pulmões
presas, às vezes, em maços de Hollywood
ou em línguas de sapos cururus
que mais tarde serão jantados
por surucucus famintas
famigeradas sedutoras
artífices de uma Eva vã
a fêmea fatal
como as modelos raquíticas
que pedalam
no parque do Ibirapuera
nas tardes de sábado
sob a sombra assombrosa
de magníficos pés de ipês
abrigos de ninhos da garça real.

Olhos fatais

Written By: Roberto - set• 04•11

Na tarde sanguinea
do Farol da Barra
contemplando as garças
que pescam no mar
meu coração oco
vazio de paixões
cansado da guerra
refém das lembranças
rasgado de dor
insiste em bater
na vã esperança
que aquela baiana
que vem requebrando
ao som de Cayme
Caetano e Afoxé
me deixe fitar
por quinze segundos
seus olhos fatais.

Inesperda filha

Written By: Roberto - set• 04•11

Apareceu do nada. Era uma quinta-feira chuvosa. Abri a porta e ela despejou na minha cara:
_Meu nome é Rita, sou sua filha, amanhã faço aniversário, 21 anos…
Fiquei confuso, não pude acreditar. Sim, tive um relacionamento com sua mãe nos anos 80…
O que significava minha vida? Separado por duas vezes, um filho que vive há anos com a mãe em Munique, um contrato como guitarrista em uma banda que sairia para turnê na próxima semana.
Fizemos exame de DNA. Dez dias depois estávamos os dois no 20º andar, esperando o envelope amarelo no guichê do laboratório.
Rita então puxou um cigarro da bolsa, reparei em seu dedo mindinho torto, igual ao meu. Usava um par de brincos feitos de palhetas com motivos tribais.
Peguei o envelope, fomos até a sacada. Rasguei-o em mil pedaços, sem abri-lo. Abraçamos-nos longa e chorosamente.
_Seja bem-vinda, minha filha!
Que presente melhor a vida poderia me dar neste momento?

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