Blog do Betusko

LITERATURA, CONTOS, POEMAS E AFINS

Palavras e canções

Written By: Roberto - set• 04•11
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No oco do cérebro
forjam-se palavras
tecidas com fios crus
de pensamentos emocionais,
palavras sementes
semanticamente arrancadas
uma a uma
por neurônios agitados
e depois despejadas na garganta
para o cantor soltar a voz
e espremer os vocábulos
até extrair o sumo
que volta a preencher
o oco do cérebro,
assim nascem as canções.

Inverno com Dante

Written By: Roberto - set• 04•11
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Vago como um cometa errante
em noites frias e enfumaçadas
por entre vielas escuras,
onde meu corpo é arrastado
refém de correnteza fugaz
que atrai alucinações.

Emudecido, caminho ao léu,
são muitos, muitos vácuos
a percorrer em solidão,
em cada bar, uma certeza:
o pesadelo continua
atroz, corrosivo, implacável
arrancando-me um grito bestial
do fundo do peito apreensivo
que ecoa angustiado
contra sombrias paredes.

Quase insano, já sem rumo
avanço sobre a rota de Dante,
há pedras e mais pedras no caminho
seres horrendos se rastejam,
vultos acenam-me ao longe.

Alargam-se as avenidas
infindáveis e tristonhas
furtadas à negra noite,
gélida cada vez mais.

Subitamente caio de joelhos
aos pés de uma porta enorme
grafitada em Latim vulgar:
“Deposite aqui todas as esperanças”
Abro-a com ansiedade e vislumbro
lá estão elas, todas elas
infernais criaturas a me esperar…

Sob tua essência

Written By: Roberto - set• 04•11
Carlos Zen

No derradeiro segundo
um sol mortiço
caía sobre a vida,
matéria-prima da tua existência,
em meros respingos de mansitude
no rusca-rusca incandescível
das tardes urbanas
de onde saem devarinho
as mariposas chinesas
para esvoaçar ao redor
de tua cabeça de porcelana
tão frágil, tão rara…

Catarse

Written By: Roberto - set• 04•11

Gritos agudos na gruta
esvaziam o vão da alma
valorizam a volatilidade febril
das amarras e das correntes
rasgando os ritos de passagem
rindo dos ricos detalhes coloridos
captados quadro a quadro
por doloridos olhos inchados
cujas pálpebras abrem e fecham
ao comando das luzes
estroboscopicamente negras
e do vai e vem das víboras
vibrantes com a sanha musical
dos velhos violões virtuosos
que invadem madrugada adentro
os corações crocantes e crus
das combalidas criaturas.
É quarta-feira de cinzas.

Fuga

Written By: Roberto - set• 04•11
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Quero umas asas bem grandes
destas que só os anjos têm
para voar sobre os Andes
para fugir para o além
para deixar as mazelas
das quais eu caí refém
sem que me sobrem sequelas
sempre que eu diga amém!

Delírios barrocos

Written By: Roberto - set• 04•11

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hoje trago o coração espetado no palito
cansei de ouvir canções tão vagas, insones
já sacrifiquei a quinta-feira,
agora só falta criar coragem
para me atirar da pedra branca,
nas asas daquela delta
ser tão louco, tão barroco
tentando tramar uma rosa cadente
que enfiasse um espinho nos clássicos,
em todos eles, esfarrapando assim a beleza
para que nós leigos de marré de si
encontremos o caminho,
a trilha da genialidade
resvalando nas imperfeições
cotidianamente anestésicas
até romper o broto perfeito
que inaugure um tempo de paz
em que os óculos pousados no vão da cortina
nem imaginem as torpezas da vida real
que insistem em nos impingir o pesadelo
onde só viceja a pureza dos lírios brancos
embora refletidos no caco de espelho
cravado no aterro improvável
multifacetado em sonhos mil
ofuscando a imagem
de um samurai atemporal
que trincha meu coração em lascas
para melhor espetar nos palitos
toda vez que eu ouso discordar
das verdades perenes que a vida ensina.

Ninguém muda ninguém

Written By: Roberto - set• 04•11

A maior ilusão que existe é a idéia de que se pode mudar alguém. Frases como: “ Quando ele casar comigo, ponho ele no jeito” ou “ Com o tempo, eu como chefe, domo  a crista desta funcionária rebelde”, ledo engano. As pessoas são o que são e somente elas próprias podem provocar mudanças em si mesmas. Se o homem ou a mulher é infiel antes do casamento, vai continuar sendo, se fulano é nervosinho  e estourado aos 30 anos, vai ficar pior aos 60 e assim por diante.

Penso que um caminho prático seja o de tentar identificar e anular nossos defeitos; controlar aquela raiva explosiva, ter mais paciência, domar os vícios, que são tantos. Somente atento a este trabalho duro é que podemos melhorar como ser humano, mas isto tem que partir de nós mesmos, ninguém vai  fazer por nós, nem mestre, nem pastor, nem psicólogo. O máximo que eles podem fazer é oferecer-nos as ferramentas e apontar o caminho.

Despido de intenções

Written By: Roberto - set• 04•11

trago agora a alma nua
sem anseios ou ansiedades
também sou humilde portador
de um coração aliviado
que abandonou os desejos
e dirige os pés descalços,
andarilhos de caminhos intrilháveis
na sua senda costumeira
em busca do indizível

vazias de propósitos
as mãos foram mantidas
desde que largaram as pedras
sob o último combate
uma luta assim, assim,
feito de palavras ásperas
contra ouvidos surdos
como em um filme mudo
e sem legendas

o sangue está filtrado
livre de impurezas emocionais
vazado a navalhadas
psicologicamente improváveis
em duelos desnecessários
sem que houvesse no final
vencedores ou vencidos
nem juízes ou testemunhas.

trago a mente vazia de sinapses
estacionada em ponto-morto
á espera de estímulos que valham á pena
já que vários sonhos foram destroçados
na caminhada por linhas tortuosas
por vezes refém dos falsos devaneios

assim me encontro agora
lançando mão de um testemunho canhestro
livre e pronto para recomeçar
despido totalmente de intenções.

Divertimento em mi menor

Written By: Roberto - set• 04•11

Vibra a corda mi do violoncelo
prenúncio da mágica viagem
lembranças de folhas mortas de outono
resvaladas na janela do expresso noturno
rumo aos pés dos Pirineus
onde um trio de cordas evocava Mozart
no pequeno palco do vagão bar
enquanto nossos corações eram guarnecidos
com doses de um vigoroso Bordeaux
e a certeza de que a vida era uma sinfonia
e nós, um casal de mochileiros
testemunhávamos um momento único
registrado numa foto polaróide
que ainda hoje guarda seu encanto,
ainda que amarelada e anacrônica
esquecida no fundo de uma gaveta.

É natal?

Written By: Roberto - set• 04•11

No ventre da nova cidade
brincavam os sapos e as serpentes
cujas bocas malpassadas e rotas
lançavam injúrias e chispadas.
Dançavam com olhos de fogo
os sapos e as serpentes,
cuspiam nos olhos do céu
pedaços de fim de ano,
ano longo, ano louco
ano sem estribos, sem tributos,
ano arrastado, puxado a dentes
cortado a navalha sem fio
ano banhado em ácido sulfúrico
sulfetos e brometos de promessas
feitas em cima de um pano vermelho.

Nos braços da nova cidade
dormiam os anjos e os capetas
que foliaram o ano todo
e agora, sem fôlego, sem fágolo
dormitam debruçando as cabeças
nos gordos seios da criadora.
De suas bocas respingam os sonhos
de um futuro promissor, sem céu cinza,
sem céu náusea, todo mármore.

Fim de festa, braços dormentes
bocas cansadas de abrir e fechar
em intermináveis trec trec.
Olhos pesados, apitos, pipos ao longe
sanfoninhas e cachoeiras cachentas
cheias de restos de todos os rostos.
Adeus! Adeus! Feliz! Feliz!
Enxurrada de catambas alegres.

Agora a grama está seca
ainda brincam os sapos e as serpentes de petas
ainda dormem os querubins e os duendes
e ainda gritam uns tantos outros:
Feliz! Felino!Um bom! Um nada!
Um tubo de estrelas minguantes
e longas conversas de bar e esquina,
quinas de mesas com longos pecados,
E agora? E agora?
Bem, só nos resta cobiçar o Ano Novo.

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