Blog do Betusko

LITERATURA, CONTOS, POEMAS E AFINS

Voo cego, um parágrafo interminável

Written By: Roberto - set• 04•11

          Na decolagem, os pés já estavam dormentes, as asas se debatiam num feroz farfalhar, não fosse assim,  a alma não se desprenderia, nem o deleite em ver  as casinhas caiadas, pequeninas pérolas incrustadas ao longo da beira mar, ou o pressentir do balé dos querubins no corredor tomado por ansiedades, valeria a peleja por manter a sanidade mental no lugar em que deveria estar,   centrada no mais alto domínio como um yogue tranquilo e sereno em meio ao vapor  improvável dos gélidos picos do Himalaia, entoando um mantra que remetia ao mergulho profundo no limiar das vicissitudes de um coração cigano, cujo compasso de ataque, avança num ritmado 2×4 sincopado,  porém, opaco, sem o brilho dos primeiros anos, sem a crista altaneira do galo de briga, mas com a arremetida certeira da águia real em busca da presa, a dois mil metros de altura, num mergulho soberbo e implacável, sem resvalar, por um segundo que seja, nas copas das árvores, tampouco nas gotas gordas da chuva que  descem obliquas e dissimuladas como os olhos daquela personagem famosa que povoa de maneira sutil, o inconsciente coletivo, que outra coisa não é senão a egrégora de um país repleto de mazelas, onde os búfalos e as gazelas fazem um pas de deux sublime, avançando por entre sinais de trânsito intermitentes e pantaneiras trilhas emolduradas por cavaleiros solitários que seguem o Divino ao toque dos berrantes e das  bandeiras, suspeitando que os lobos perscrutam, no mistério da noite, um vacilo na cavalgada daquelas Amazonas  valentes e carentes, a vigiar seus domínios como sentinelas incorruptíveis, mas que permeiam brechas nas emoções e nos desejos desvelados, colaborando com ataques viris e virulentos dos marujos, estivadores, garimpeiros de uma Serra Pelada, sem vegetação e sem pepitas que lhe façam valer a fama, mas cujos filhos  tocam a bateia em busca do sonho que atravessa o rastro perdido dos segredos alquímicos dos fenícios no domínio da mente sobre a matéria, na fúria do vento arrastando as velas e balançando os grilhões dos escravos egípcios aprisionados  nas embarcações infernais, que fazem lembrar  um tempo em que havia a esperança do jovem Ícaro em sua aventura de voar próximo ao sol cujos raios agora refletiam na fuselagem do velho jumbo 747, já nivelado no céu com o azimute apaziguado,  cumprindo sua velocidade cruzeiro e embalando um passageiro inerte na poltrona, trilhando sua costumeira viagem astral.

Sábados com submarinos

Written By: Roberto - set• 04•11

Um submarino amarelo
na capa do velho LP
em meio a farelo de milho
e nódoas de chocolate
contornadas a caneta hidrocor.

são memórias que flutuam,
flocos de algodão ao vento,
flâmulas de um quarteto inesquecível
botons aplicados no pinguim da geladeira
branco e preto, verde e amarelo
plantas aquáticas dançando
ao som de sargento Pepper
no aquário da loja da esquina
com acarás e bettas miudinhos
sincronizando uma coreografia surreal
visível através do vidro da velha barbearia
esquecida na ladeira preguiçosa
daqueles doces sábados de verão
quando caleidoscópios e flores de celofane
tumultuavam o pátio da escola primária
antes do bailinho começar
e tornavam tudo o mais, secundário
só o que importava ali
eram os garotos de Liverpool
e nada mais.

Saudade em Tom maior

Written By: Roberto - set• 04•11

Hoje acordei macambúzio,
com saudades de Vinícius
Tom Jobim, do mar de búzios
sentindo falta do chope gelado
do barquinho, do violão
da seresta á capela
do encontro marcado
aos sábados na sala do poeta
de riso largo e franco
das madrugadas no beco das garrafas
com seus porres memoráveis
ao som da trilha sonora primordial,
chega, chega de saudade.

Hoje me fiz reticente
choroso por não poder
rodar ao contrário a manivela do tempo
tentando ver o mundo em câmera lenta
e sonhar com os poemas do Mário
mesmo com as pedras no caminho
que não dificultariam a passagem
de um Bandeira apaixonado
retinto de cores mil
desfilando na passarela, um anjo clonado
com suas asas de algodão e arame
e punhados de roxas purpurinas.

Hoje irei dormir com saudades,
lembranças de uma época que não vivi.

Rastros da noite

Written By: Roberto - set• 04•11

Caminhar sobre vozes pegajosas
tropeçar em horas lentas
esmorecer na sombra da preguiça
até soltar um sonífero bocejo
ante a crua espera da luz da lua
e aplacar o longo desejo
de ver trincar o céu
em milhões de estrelas
exuberantes, singelas
que descem em delírio
como regidas pelo vento
e lavam as cabeças,
escorrem alma adentro,
levam os pecados
e depois, tanquilas
evaporam-se sorrindo
em rastros helicoidais
madrugada adentro
abandonando o sereno
em suas gotas humildes
na triste tarefa de abafar
o sonho e a fantasia
no coração dos boêmios.

Prá frente, Brasil!

Written By: Roberto - set• 04•11

      O céu  estava  forrado por  centenas de balões naquela tarde de domingo. A folhinha do Sagrado Coração de Jesus, pendurada na parede da cozinha marcava 21/06/1970. Estávamos todos gritando vivas e pulando feito  touro em rodeio, com as veias jugulares  quase explodindo no pescoço de tanta  euforia. Em cada esquina, o som que se ouvia em unanimidade nos  aparelhos de rádios, sempre  no último volume,  era o tão conhecido hino que seguíamos cantando indefinidamente:

“Noventa milhões em ação,
Pra frente Brasil,
Do meu coração…
Todos juntos vamos,
Pra frente Brasil,
Salve a Seleção!”

  O juiz mal acabara de apitar o encerramento da partida entre Brasil e Itália e a Vila Carmozina em São Paulo entrou em catarse. Cada garoto pegou sua bola de couro, de plástico de meia e saiu à rua a driblar e  a chutar, desesperados em comemoração ao tricampenonato do Brasil e à posse definitiva da taça  Jules Rimet. Os vizinhos todos, exceto seu Carmelo que era italiano e meu pai, que sempre vinha com a mesma ladainha quando tinha jogo de futebol pela TV – “os jogadores ganham uma fortuna e o povo morre de fome” – se abraçavam e comemoravam loucamente a conquista como se estivessem dentro do estádio Azteca na cidade do México. Quase podíamos abraçar um Pelé imaginário, um  Rivelino,  um Tostão, o goleiro Félix –  a muralha – e o técnico Zagalo. Com  o capitão Carlos Alberto levantarmos a taça tão desejada. Ah, como a vida era boa, como era bom ser brasileiro naquele momento!

Todos regurgitavam felicidade e eu estava lá no meio, dançando e imitando os dribles  e gingados insuperáveis do rei Pelé. Foi neste cenário alegre que ao erguer a vista a alguns metros adiante,  topei com a figura triste do colega Giba, sentado no meio fio, na calçada em frente a sua casa, tendo a cabeça entre as mãos, em estado de choro convulsivo. Eu sabia por instinto que aquilo não era choro de alegria, não. Mas fiz questão de virar o rosto para não contaminar minha felicidade naquela hora. Puro egoísmo, quem sabe.  

  O Giba era irmão mais velho do Bitoco, nosso amigo  e estava de volta ao bairro depois de um mês em que  ele não dava as caras no pedaço.

 Mas este dia que estou narrando teve um começo inesquecível também, pois,  logo pela manhã, um caminhão das lojas Mappin parou em frente à minha casa para descarregar nossa primeira  TV colorida. Entrega urgente para um domingo especial. Meu irmão mais velho – que era caixa do Banco Mercantil – comprara o aparelho – marca Telefunken em prestações e fizera segredo em nossa casa. Bem que eu havia percebido umas conversas diferentes que se esvaziavam quando eu mostrava interesse. Ele e seus amigos falavam em transmissão em cores, em calcinhas com gosto de frutas, em fulano que apanhava no pau-de-arara – coisas que em respeito aos meus dez anos de idade -, eles não deixavam  vazar para mim. Bem que eu tentava, com cara de sonso, me aproximar devagarzinho para ouvir o papo dos mais velhos, fingindo que estava brincando com algum objeto nas mãos. Mas quando a turma percebia minha pesença, a prosa diminuia e mudava de rumo.

 Pois bem, a partida final estava marcada para as 17:30h  e seria a primeira Copa do Mundo  a ser transmitida em cores. Com o nosso novo aparelho de TV – que era “uma brasa”-  é lógico que a torcida se reuniria em minha casa, pelo menos os garotos que moravam nas casas ao redor da minha.

Tudo combinado, Nico, Tatá e Lalau trariam o açúcar, Dinho, Mané e Vavá, os pacotes de Ki-suco de vários sabores, e as embalagens de milho de pipoca ficavam por conta dos demais. Não queriamos que minha avó se intrometesse em nossa reunião, a não ser para vigiar o fogão e fiscalizar a algazarra.

 Neste dia jogamos futebol das duas às cinco da tarde. Com certeza todos os garotos do bairro, todos os meninos do Brasil inteiro, que tinham condições,  correram atrás de uma bola em algum canto do país.

 Nossas partidas na rua ou no campinho eram assim, cada um escolhia para si um nome de  um jogador da seleção, eu, por exemplo, era sempre o Jairzinho. Na verdade, eu queria mesmo era ser o Pelé mas este era exclusividade do Giba que driblava como ninguém e metia a mão na “fuça” de quem o contrariasse. Para dar mais veracidade à pelada, alguém, sentado em cima do muro, ia narrando o jogo  até se cansar e trocar de lugar com algum dos jogadores.

E desta maneira a fama da seleção canarinho ia se perpetuando país afora, se avolumando cada vez mais, em cada esquina, cada bairo, cada cidade.

 Mas, continuando a narrativa, naquele domingo, todos estavam reunidos em grupos, nas igrejas, nos botecos, nas pracinhas, – menos seu Honório, pai do Bitoco e do Giba. Estranhamos   naqueles dias  como a família de seu Honório estava mesmo esquisita. Ele e a esposa não eram mais vistos na rua. Ele saia bem mais cedo para o trabalho, ainda escuro e ao voltar, evitava passar em frente às casas dos vizinhos conhecidos. Havia muito fuxico sobre o que estava acontecendo. Diziam as santas línguas que o Giba tinha se envolvido com a  Polícia, lá na faculdade em que ele estudava,  e seus pais, gente humilde, estavam envergonhados com a situação.

 Cinco minutos antes de começar a partida dos sonhos, a pipoca ja estava pronta,  o refresco enchia as jarras em formato de abacaxi e os cubos de gelo eram trazidos por cada participante do evento em forminhas de plástico multicolorido

Finalmente, o televisor  foi  ligado, contando com o apoio imprescindível de seu Elias no telhado,  para buscar a melhor posição da antena   de modo que a imagem não tremesse  nem chuviscasse além do tolerável, enfim, era a seleção canarinho que entrava em campo. E como era lindo apreciar o colorido do uniforme verde e  amarelo pela primeira vez!  Enchia  os nossos olhos e corações.

 Pois bem, penso que estes noventa minutos mágicos deveriam ser congelados e eternizados por um decreto qualquer, se bem que em meu coração eles já estão gravados feito uma tatuagem da taça cobiçada.

O resultado da surra foi de quatro a um para o Brasil .  A Itália tombava de joelhos diante da poderosa seleção brasileira. Para mim, a melhor seleção de todos os tempos.

E a festa correu até onde iniciamos a narrativa, com o céu colorido por  balões, no tempo em que ninguém se preocupava se podia ou não soltá-los.

Assim estávamos todos comemorando, quando me aproximei de meu mano mais velho que conversava com seus amigos e não percebeu minha chegada no meio da rua cheia de gente. Pude ouvir seus comentários entre a gritaria geral:

 _ Caparam o Giba! Deixou escapar  um dos amigos de meu irmão, tapando a boca com a mão,

_ Parece que arrancaram as bolas do saco dele com alicate… Foi lá no DOPS. Emendou outro participante da rodinha.

  Meu coração gelou ao ouvir este diálogo, a corneta que eu trazia caiu e foi pisoteada. Era uma conversa surreal  para mim.  Mesmo no meio da alegria geral, senti um baque profundo. Uma história de horror assim só podia ser mentira… Não, no Brasil da Copa, não, isto era gozação, com certeza. Eu tentava desesperadamente  me iludir naquele momento. Instintivamente virei o rosto para o lado da casa do Giba mas não o  vi mais.

O assunto virou um tabu na rua e semanas depois a família de seu Honório se mudou para outra cidade e  nunca mais soubemos notícias. Porém,  a imagem do Giba  expressando sua dor  medonha tem assento marcado na galeria de memórias doloridas que se somam áquelas causadas pelos percalços em nossas vidas, são feridas impossíveis de apagar e se abrem em chagas vez por outra.

 

Das flores

Written By: Roberto - set• 04•11

Sementes de orquídeas violetas
caídas em solo fértil
trazidas em cápsulas vivas
no bico de um João-de-barro,
perseverante e mítica criatura,

provocam o milagre da germinação
e fazem brotar sonhos
em botânicos e sagrados jardineiros
na busca da reinvenção do mundo
a transformar-se, sob o cotidiano febril,
em um imenso viveiro de plantas,

quem sabe, um novo Jardim do Éden.

Carpe diem

Written By: Roberto - set• 04•11

lagartos largados espreitam teu caminhar
canários canoros tuitam teu nome
ninguém duvida da raridade do momento
nem a claridade da tardinha mortiça
que nos convida a acompanhar teu argumento
como atentos seguidores de uma pitonisa
sob a sombra de um coqueiro gigante:

“não sou água nem sou sal,
somente sou semente viva!”

prosaicas palavras lançadas ao léu
conseguem erguer o véu da verdade
debaixo de um céu de quarenta graus
onde apenas o mergulho no mar
pode aplacar as cabeças ferventes
que não respeitam palavras-cruzadas difíceis
nem sudokus de nível cinco
impregnados de protetor solar
abandonados na esteira de vime
na leseira de um verão alagoano.

Bodas de sangue

Written By: Roberto - set• 04•11

vestida de noiva
trajada de angústia
o corpo calava
o rosto fingia
um falso sorriso
do branco tecido luzia
enquanto a dor da mentira
fincava agulhas na alma
debalde cerzia os pedaços
de um coração aflito
paralisado de medo
diante da branca capela
por onde adentrou pesarosa
rumo ao altar decorado
com seus passos soturnos
como a pressentir ansiosa
a cancela do matadouro.

Amor urgente

Written By: Roberto - set• 04•11

Hoje eu quero um amor
daqueles de cinema,
quero o vapor dos seus poros
lavando minha alma vadia
quero seus sonhos sacanas
volatizando meus sentidos,
hoje eu quero você
com todo seu kit completo
dengo, chamego e desejo
quero um amor desesperado
em fúria madrugada adentro
e quando a lua faceira
desligar seu holofote
sobrará apenas o doce deleite
daquilo que fomos nós
estirados no tapete.

Amanheceu em meu coração

Written By: Roberto - set• 04•11

Solstício de inverno em minha alma. Os raios de sol derramam esperança e expectativa com o novo dia. Samambaias florescem em xaxins secos enquanto busco cruzar a tênue névoa que separa o sonho da realidade. Os sons dos gravetos partidos sob meus pés me remetem a um mundo de alegorias plenas. São querubins, colombinas, gondoleiros do amor, agentes de viagens intergalácticas e faxineiros de almas e mentes que desfilam com a imprecisão das retinas reticentes, recém despertas. Há gotas de orvalho escorrendo dos grossos caules de um passado ainda adormecido. Descem sonolentas, caem e se espatifam sobre insetos metamorfoseados em pássaros ciganos. O doce aroma da seiva dos pinheiros rasga todas as últimas suspeitas da madrugada perdida. Canta o galo garnisé o hino da ressurreição.
Amanheceu em meu coração…

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