Blog do Betusko

LITERATURA, CONTOS, POEMAS E AFINS

Sonho que virou pesadelo

Written By: Roberto - set• 04•11

            Dia destes encontrei, comendo um pastel em uma barraca de feira, meu amigo de infância Kiko que há anos não via. Voltei ao bairro para ir ao cartório  passar uma escritura de um terreno que eu havia vendido.

             Kiko era daqueles amigos, pau-prá-toda-obra. Sempre disposto a todas as empreitadas; jogar futebol na chuva, correr atrás de pipas no quintal do seu Juca louco, entrar nos bailinhos de sábado à noite mesmo sem saber dançar, enfim, um amigão.        

             Mais tarde, lá pelos vinte e cinco anos de idade, Kiko iniciou a construção de uma casa, tipo sobrado, no mesmo bairro. Terminou apressadamente a parte de baixo, com sala-dormitório, banheiro e cozinha deixando a parte de cima para construir aos poucos. Casou-se  com a Betina e mudaram-se assim mesmo para a casa em construção.

            Neste período eu namorava uma garota enquanto Kiko já namorava a Betina. Saíamos juntos os quatro sempre que possível. Após o casamento, toda vez que eu o convidava para fazermos uma programação, tipo cinema, barzinho, shows, ele sempre perguntava: “_Quanto vai morrer no programa?” – Eu dizia: “_Uns cinquenta paus, mais ou menos, por cabeça.” Então Kiko respondia: “_ Putz, com cinquenta paus eu compro três sacos de cimento!”

         E assim seguia a história.

_Kiko, vamos no show do Legião Urbana? Vai toda a galera…

_E com quanto vou ter que morrer? Inquiria meu amigo.

_Custa oitenta paus o ingresso.

_Caraca, oitenta paus vezes dois, são cento e sessenta. com esta grana compro quatro metros quadrados de piso para o banheiro da suíte. Respondia sem pestanejar o eterno construtor.

           Esta ladainha foi nos enchendo a paciência até que ninguém mais chamava Kiko para nada, apenas para festas em casa, quando ele não tinha que pagar nada. Por fim, fui transferido no trabalho indo  morar em outro Estado.

           Oito anos depois, encontro meu amigo Kiko traçando um pastel e um copo de caldo de cana. Estava calvo, magro como sempre e com óculos de grau maior ainda.

_ Porra, kiko, que bom te encontrar aqui! Exclamei todo contente.

_E ai, bicho, “tá que o pariu”, quanto tempo, você sumiu! Respondeu Kiko.

 _Como vai a Betina?  Você tem filhos? Fiz aquelas perguntas habituais.

 _Não, cara, você nem sabe, nos separamos há três anos e não tivemos filho…

_Poxa, que chato, mas e o sobradão, você conseguiu terminar?

_Pois, é, Zé, terminar eu terminei. Quatro quartos, duas suítes, sala de som, salão de jogos e o “cassete à quatro” – Concluiu o amigo.

_E quem está morando lá? Perguntei interessado.

_Ah, nem te conto, três meses depois de eu terminar a construção total, a Prefeitura tomou meu sobrado por desapropriação. Derrubaram todas as casas da rua para levantar uma praça, vê se dá para acreditar!

_Mas você recebeu a indenização da Prefeitura? Indaguei surpreso.

Ai é que está o problema, recebi uma porra de uns precatórios que eu sei que nunca vou poder trocar por grana. Eu soube de gente que está há trinta anos esperando indenização. Concluiu pesarosamente, Kiko.

 _E onde você está morando?

_ Na edícula da casa dos meus pais. É a vida…

 _Então você voltou a viver com seus pais? Puxa que coisa! Espantei-me.

            A conversa seguiu mais um pouco e depois nos despedimos prometendo rever-nos em breve. Entrei no carro e segui viagem para casa. No caminho fui ponderando: Será que valeu a pena o Kiko ter feito tanta economia naquela época. Quantos anos de privação para nada. Mas, é a vida, quem é que pode saber…

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