Blog do Betusko

LITERATURA, CONTOS, POEMAS E AFINS

Wandeca e o Poeta

Written By: Roberto - ago• 24•11

        Era um domingo de inverno em São Paulo, findava o ano de 1969. Tarde gelada e úmida.  Estávamos todos no campinho de futebol, eu, o japonês Insamu, Mané e o Nenê. Procurávamos tampinhas de refrigerantes para retirar a cortiça na esperança de encontrar  vale prêmios. O pai de Nenê era dono de bar e já ganhara um rádio de pilha. Dona Loló teve mais sorte, tirou um jogo de jantar de faiança, com desenhos de patos selvagens e cabanas com lareiras, como se vê, motivos bem brasileiros. A maioria de nós apenas juntava 30 tampinhas para ganhar um chaveirinho  mixuruca com miniatura de garrafa de  coca-cola. Com as tampinhas sem brindes, fazíamos botons, inserindo a cortiça pelo lado de dentro da camisa e a tampinha no lado de fora. Pena que o arranjo só durava o tempo de  uma corrida atrás de uma pipa ou um pulo no galho de uma árvore.

Por volta das três da tarde, a turma já havia almoçado –  macarrão com frango, invariavelmente o cardápio aos domingos. Naquele dia meu pai saíra cedo para ir à missa e trazer a “mistura” para o almoço mas chegou tarde e comemos arroz com feijão e berinjelas à milanesa. Para dizer que eu tinha comido macarrão com polpetone, sujei minha boca com pedaço de tomate, só para não fazer feio frente á turma.

 Rodeando as calçadas íamos juntando na camiseta dobrada, a colheita rara das pequenas chapas metálicas, como que guardando troféus valiosos.

 Estando distraído, senti um par de mãos quentinhas cobrindo-me os olhos.

- Adivinha quem é? – Sussurrou em meu ouvido a menina mais cobiçada do bairro, Verinha.

Meu coração acelerou, as tampinhas escoaram das mãos e respondi a primeira coisa que me veio à cabeça: – É um anjo que caiu do céu!

Foi então que me descobri poeta, um tanto canhestro, mas poeta, aos nove anos de idade. E como surtiu efeito a minha resposta… Verinha virou-se, olhou bem nos meus olhos, tirou do bolso do casaco um lencinho rosa e limpou cuidadosamente a marca do “molho de macarrão” que o menino descuidado não percebera.

 Os amigos logo se achegaram e cortaram o meu barato, caçoando e fazendo brincadeiras grosseiras. Verinha então desconversou e disse que viera nos avisar que aquela tarde passaria no canal 4 o último programa da Jovem Guarda, apresentado por Roberto Carlos, Erasmo e Wanderléia. Era a despedida e estávamos convidados para assistir na casa dela. Dizem que estariam todos os cantores e cantoras de sucesso do momento.

- Se apressem que começa às quatro horas! Disse Verinha, imitando uma canção.

 Nesta época ainda não tínhamos televisor em casa, só um ou outro vizinho mais “bem de vida”, candidatos à “alta sociedade” como dizia meu tio Carmelo, possuía aparelho de TV, em preto e branco, é claro!

 Corri feito um zagueiro até minha casa, driblando vasos e muretas. Troquei a camiseta por uma camisa de flanela, roubei de meu mano mais velho um pouco de creme Trim para fixar o topete e a colônia ácqua velva de meu pai escorreu por todo o meu corpo magricelo. Estava um matador!

 Ao sair, encontrei minha irmã caçula sentada no degrau da escada chorando. Aquilo me aniquilou. Podia acontecer tudo na vida, torcer o pé no jogo, levar bordoada da mãe por desobediência, bronca da professora, mordida de cachorro, mas ver a irmãzinha chorando, isso não… Eu não suportava.

 Descobri então que nossa cachorrinha Wandeca havia sumido. Era de raça pequenês, muito apreciada em São Paulo naqueles anos. Havia mais de três horas que estava desaparecida.

 Saí desesperado em busca de Wandeca. _ Maninha, fique calma que eu dou um jeito! Gritei já largando o portão atrás de mim deixando um rastro perfumado no ar que já carregava gotinhas de garoa.

 Encurtando a narrativa, levei duas horas  e meia procurando em todos os locais em que seria esperado encontrar o animal e já estava decidido a voltar, feito um Hércules mal sucedido quando me deparei com a cauda branca estirada por detrás do quintal da dona Antonieta. _ Meu Deus, manchas vermelhas! A mascote estava desacordada, levemente ensanguentada. Possivelmente sofrera um atropelamento.

Ergui então Wandeca, com todo o cuidado do mundo e rumei para casa, com as lágrimas escorrendo no rosto transtornado e o coração aos solavancos.

 Duas semanas se passaram e por sorte, Wandeca sobreviveu, ficou um pouco manca, mas continuou correndo atrás das bicicletas.

 Naquele domingo, perdi o programa na TV, perdi também  a possibilidade de namorar Verinha que se acertou com o Sérgio, mas ganhei a fama de herói na família e, sobretudo o apelido de poeta que me acompanhou por muitos anos. Ah, que domingo inesquecível…   

 

                                                       VENDE-SE UM CORAÇÃO EM BOM ESTADO.

É uma boa peça, tem 47 anos de atividade ininterrupta, nunca pifou, tem todas as revisões feitas no INCOR, todo original,  nunca deixou seu dono na mão.
 Esta é a descrição do hardware, entretanto, o software carece de pequenos ajustes, pois já  viveu muitas aventuras, fazendo seu dono rir muito, e chorar, também, é claro. Emocionou-se  assistindo a conquista de 3 Copas do Mundo de futebol, se encantou com os dribles do Pelé e do Zico. Pulsou forte quando tocava a musica tema da Fórmula 1, tendo o Sena desfilando com a bandeira do Brasil.  Entristeceu-se no cortejo fúnebre do mesmo Ídolo nas ruas de São Paulo; dançou com o Astronauta  Neil Armstrong descendo como uma pluma na Lua. Ficou paralisado quando anunciaram que Ronaldo, o fenômeno, havia amarelado e não disputaria a final daquela Copa na França. Quase parou de bater quando o carro de seu dono rolou ribanceira abaixo em um acidente sem maiores gravidades.
Mas, o que conta mesmo, no meio disso tudo, são as experiências  acumuladas nestes anos de existência bem vivida: amou, amou, amou e tem garantia de fábrica para continuar amando mais 40  anos, pelo menos, sem desfibrilar.
Vende-se pela melhor oferta, ou estuda-se troca, na  Igreja, Terreiro de Umbanda, Sinagoga, coração sem preconceito de credo e raça.  Tratar com Betusko.

O SONHO DO SOBRADO QUE VIROU PESADELO

            Dia destes encontrei, comendo um pastel em uma barraca de feira, meu amigo de infância Kiko que há anos não via. Voltei ao bairro para ir ao cartório  passar uma escritura de um terreno que eu havia vendido.

             Kiko era daqueles amigos, pau-prá-toda-obra. Sempre disposto a todas as empreitadas; jogar futebol na chuva, correr atrás de pipas no quintal do seu Juca louco, entrar nos bailinhos de sábado à noite mesmo sem saber dançar, enfim, um amigão.        

             Mais tarde, lá pelos vinte e cinco anos de idade, Kiko iniciou a construção de uma casa, tipo sobrado, no mesmo bairro. Terminou apressadamente a parte de baixo, com sala-dormitório, banheiro e cozinha deixando a parte de cima para construir aos poucos. Casou-se  com a Betina e mudaram-se assim mesmo para a casa em construção.

            Neste período eu namorava uma garota enquanto Kiko já namorava a Betina. Saíamos juntos os quatro sempre que possível. Após o casamento, toda vez que eu o convidava para fazermos uma programação, tipo cinema, barzinho, shows, ele sempre perguntava: “_Quanto vai morrer no programa?” – Eu dizia: “_Uns cinquenta paus, mais ou menos, por cabeça.” Então Kiko respondia: “_ Putz, com cinquenta paus eu compro três sacos de cimento!”

         E assim seguia a história.

_Kiko, vamos no show do Legião Urbana? Vai toda a galera…

_E com quanto vou ter que morrer? Inquiria meu amigo.

_Custa oitenta paus o ingresso.

_Caraca, oitenta paus vezes dois, são cento e sessenta. com esta grana compro quatro metros quadrados de piso para o banheiro da suíte. Respondia sem pestanejar o eterno construtor.

           Esta ladainha foi nos enchendo a paciência até que ninguém mais chamava Kiko para nada, apenas para festas em casa, quando ele não tinha que pagar nada. Por fim, fui transferido no trabalho indo  morar em outro Estado.

           Oito anos depois, encontro meu amigo Kiko traçando um pastel e um copo de caldo de cana. Estava calvo, magro como sempre e com óculos de grau maior ainda.

_ Porra, kiko, que bom te encontrar aqui! Exclamei todo contente.

_E ai, bicho, “tá que o pariu”, quanto tempo, você sumiu! Respondeu Kiko.

 _Como vai a Betina?  Você tem filhos? Fiz aquelas perguntas habituais.

 _Não, cara, você nem sabe, nos separamos há três anos e não tivemos filho…

_Poxa, que chato, mas e o sobradão, você conseguiu terminar?

_Pois, é, Zé, terminar eu terminei. Quatro quartos, duas suítes, sala de som, salão de jogos e o “cassete à quatro” – Concluiu o amigo.

_E quem está morando lá? Perguntei interessado.

_Ah, nem te conto, três meses depois de eu terminar a construção total, a Prefeitura tomou meu sobrado por desapropriação. Derrubaram todas as casas da rua para levantar uma praça, vê se dá para acreditar!

_Mas você recebeu a indenização da Prefeitura? Indaguei surpreso.

Ai é que está o problema, recebi uma porra de uns precatórios que eu sei que nunca vou poder trocar por grana. Eu soube de gente que está há trinta anos esperando indenização. Concluiu pesarosamente, Kiko.

 _E onde você está morando?

_ Na edícula da casa dos meus pais. É a vida…

 _Então você voltou a viver com seus pais? Puxa que coisa! Espantei-me.

            A conversa seguiu mais um pouco e depois nos despedimos prometendo rever-nos em breve. Entrei no carro e segui viagem para casa. No caminho fui ponderando: Será que valeu a pena o Kiko ter feito tanta economia naquela época. Quantos anos de privação para nada. Mas, é a vida, quem é que pode saber…

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